Não conseguiu determinar qual era a nota do som estridente que sempre o sobressaltava. Talvez fosse Lá, nota sem graça. O barulho do telefone invadiu seu quarto doze vezes antes do silêncio. Ironicamente, o mesmo número de Ré iniciais de Danse macabre tocados por Lauro no violino antes da sinfonia telefônica retornar.
Cada toque possuía três tempos e estava certo: eram em Lá. Seu doutorado em música estava a salvo. O mesmo não podia ser dito sobre seu emprego como solista caso não terminasse de ensaiar a peça a tempo. Pulou o início e foi direto para o Trítono, seu amado “diabolus in musica”. Só então percebeu o quão dissonante estava a última corda. Mais atraso.
Um. Dois. Três. A corda arrebentou durante a afinação, lhe presenteando com um corte limpo e rubro na bochecha esquerda. O filete de sangue escorreu até o pescoço já dolorido e se depositou no estandarte do instrumento, ainda apoiado no ombro. As doze cessaram em respeito e ouviu-se apenas a respiração do músico em um tempo.
Perda total. Não conseguiria aproveitar a corda, precisaria de uma nova, daquelas que só encontra do outro lado da cidade. Quem sabe, com sorte, tivesse uma reserva. Revirou gavetas, estantes, armários, as mãos hábeis percorrendo cada canto obscuro. O minuto de silêncio expirou e as doze voltaram ainda mais impiedosas, mais sibilantes. Analisou bolsos de ternos antigos, esconderijos improváveis, gavetas de remédios, até encontrar uma caixa embaixo da cama onde guardava partes de instrumentos quebrados. Ali, apenas um arco partido de crina gasta.
Três. Dois. Um. Teve uma ideia ao olhar novamente para o arco quebrado em formato de lâmina, uma memória da época em que buscava uma vocação e passou alguns semestres na área médica. Beijou o velho amigo antes de inseri-lo na panturrilha, perfurando derme e tecido até chegar ao músculo. Precisava ter cuidado para não danificar o material. Deslizou a lâmina improvisada e ela aceitou, valente, seu novo papel, lutando contra cada obstáculo cutâneo, esponjoso e muscular até chegar à canela. Iniciou a busca na fonte recém-aberta, as mãos nadando em sangue, dedilhando veias e gordura até agarrarem um tendão da grossura ideal. Aliviou a nervura de sua antiga função e prendeu a nova corda no instrumento. Teve dificuldade de início, os dedos escorregavam ao formar os acordes e a textura cartilaginosa pedia mais pressão. Nada que não pudesse domar.
Um. Dois. Três. A obra-prima de Camille Saint-Saëns abafou o grito telefônico até a torrente de sangue acabar com todos os sons.

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