Dia de Fortuna

— Me dá esse sonho ou eu mato o Capitão América.

Naquele momento eu deveria ter parado e questionado quais decisões haviam me colocado na padaria Maffei fazendo um guri com uniforme do Marista chorar enquanto enfrentava a decisão mais difícil da sua curta vidinha: a integridade do boneco favorito ou o último sonho de mumu. 

Acabou optando pelo primeiro vingador. Talvez Toy Story ainda fosse relevante no fim das contas. Fugi da cena do crime e abocanhei meu prêmio, permitindo a quantidade obscena de açúcar invadir meu corpo após meses de dieta sem propósito. Um item a menos na lista de Fortuna, próximo.

Sim, meu nome é Fortuna. Eu tinha o pescoço enrolado no cordão umbilical e os médicos só descobriram quando nasci morta e com a cara roxa. Conseguiram me reviver através dos milagres das Deusas da mamãe (ou da medicina, como preferir) e ao invés de me chamar de Rita tal qual toda mãe de filha desgraçada dos anos 80, ela optou por Fortuna.

O Rápida Bento deixou o ponto botando gente pelo ladrão. Ali estava algo do qual eu não sentiria falta, espero que não tenha transporte público no além. Ah, esqueci de mencionar algo importante: estarei morta em poucas horas.

Era minha quarta jogada (ou seria quinta?) quando a propaganda das Casas Bahia concretizou a previsão. É consenso no universo da cartomancia, a carta da morte não significa morte literal e sim um recomeço ou qualquer coisa do tipo. Foi o meu primeiro pensamento ao posicionar o tarô tal qual aprendi com Madame Alba (ou quase, esqueci se deveria cortar com a mão direita e distribuir com a esquerda ou o contrário) e puxar a carta agourenta pela primeira vez, na posição de futuro. Entretanto, nada tinha para recomeçar. Decidi jogar de novo (às vezes precisa calibrar) e obtive o mesmo resultado, dessa vez acompanhado por arcanjos menores (ou seriam maiores?), complicando tudo ainda mais. Quando puxei a desgraça de carta mais uma vez, um homem munido de uma energia certamente fornecida por drogas ilícitas, gritou: “É AMANHÔ enquanto apontava para uma Air Fryer com desconto.

Às vezes um charuto é só um charuto e às vezes a carta da morte acompanhada por um “É AMANHÔ é exatamente isso: eu tinha menos de vinte e quatro horas de vida. Ao me dar conta, quis chorar, mas como sempre não consegui. Desde criança sou incapaz de produzir lágrimas por motivos tristes, apenas felizes. Mamãe dizia que ao chorar de alegria eu poderia fazê-lo sem dar satisfação.

— Um passinho pra frente, por favor.

— Só se eu voar, filho da puta.

As palavras simplesmente fugiram de mim tal qual ciclopes libertos do tártaro em busca de vingança e de onde havia muito mais por vir.

— É o que, dona?

— Só se eu voar, filho da puta. Cabe cem cabeça nesse ônibus, deve ter umas duzentas. O bastardinho ali — apontei para um adolescente de mochila nas costas logo na saída da roleta — é tu mesmo tartaruga ninja do inferno, tá trancando todo o corredor. Mais lá pro meio tem um corno com uma escaleta achando que é o melhor momento pra vender a arte dele e testando o réu primário de todo mundo. Não teve um puto pra dar lugar pra essa maldita dessa grávida há três paradas trancando a porta do ônibus e o senhor quer que eu dê a porra de um passinho pra frente?

Uma descoberta feita neste meu dia de fúria, foi que quanto mais agressiva e inesperada for a ofensa, maior o tempo de reação. Consegui retornar pela roleta e descer pela porta da frente antes de ouvir xingamentos a todas minhas antepassadas. Parei na frente do campus centro, mais alguns minutos de caminhada e chegaria ao meu antigo emprego… ou aquele era o caminho para o meu primeiro trabalho? Fiquei parada no meio da calçada, sem conseguir lembrar onde trabalhei nos últimos cinco anos. Pessoas esbarravam em mim murmurando queixas condizentes não registradas pelo meu cérebro preocupado demais em ordenar memórias. Um item da lista ficaria para trás, meu tempo estava acabando.

Vaguei até chegar na casa de Vanessa, minha penúltima e mais difícil parada. O prédio antigo na Duque continuava o mesmo de seis meses atrás, até o botão do 315 permanecia frouxo, necessitando de muita pressão em dias bons e ser substituído por gritos em dias ruins.

— Que porra de maluquice é essa, Fortuna?

Ao elaborar a lista, parecia natural incluir uma última visita à Vanessa. Contudo, ao me deparar na casa da minha ex-alguma-coisa, falando sobre arcanjos maiores àqueles olhos amendoados cheios de racionalismo, vi que poderia ter morrido sem aquela humilhação.

— Talvez eu morra em algumas horas. Adorei o corte, você fica ótima de cabelo curto. Pintou também, não é? O preto te favorece muito mais do que o loiro.

— Se eu pintei o cabelo? Fortuna pelo amor de Deus, tu não pode me dar um fora do nada, desaparecer por sei lá quanto tempo e depois surgir dizendo que vai morrer.

— E ainda assim, aqui estou.

Talvez a minha morte viesse pelas mãos dela.

— Tu tem dez minutos pra me explicar o que tá acontecendo ou vou te colocar pra fora a vassourada.

Ariana mais velha entre seis irmãos, a paciência de Vanessa havia se esgotado há uns quinze anos. Eu também não estava em alta conta com ela, pois havia terminado algo que nunca tive coragem de começar: ela me pediu em namoro algumas vezes, nunca consegui aceitar. Na época havia algo importante, mas agora não lembro. Mesmo assim ela aceitou continuar me vendo e eu retribuí sumindo. Parei de tentar a minha sorte e forneci um resumo dos últimos acontecimentos.

— Tu roubou o sonho de uma criança?

— Falando assim parece muito mais sério. Quem ouve pensa que eu impedi o guri de virar astronauta.

— Fortuna tu nem sabe jogar tarô direito.

— Sei sim, aprendi com a Madame Alba mês passado.

Observei seus olhos serem preenchidos de lágrimas e entendimento antes de ser surpreendida por um abraço. Minhas mãos frias contrastaram com o calor de suas costas expostas. Sim, expostas. Expostas desde a segunda semana em que nos conhecemos em 2017, quando Vanessa cortou o cabelo e o pintou de preto, mantendo o estilo idêntico desde então.

— Querida. Madame Alba era a sua mãe, lembra? Você já foi ao médico? Começou precocemente com ela também, não é?

Demorei-me um pouco mais naquele abraço, deixando o aroma de sabonete e a pele macia recuperarem lembranças perdidas na química falha do meu cérebro, para a nossa última troca de olhares ser completa.

— Eu preciso ir.

— Será que até agora tu vai embora? Fica comigo, deixa eu cuidar de ti.

— Desculpa, Nessa.

Começou quando mamãe estava perto dos trinta. No início eram apenas algumas confusões, coisas guardadas em lugares errados e datas trocadas. Depois ela não conseguiu mais fazer as consultas de tarô, pois não lembrava o significado das cartas e ficava violenta. Não demorou muito e fomos despejadas da casa onde moramos a vida toda. Lembro da mamãe, em um momento de lucidez, rogar praga e dizer que jamais conseguiriam alugar o imóvel a outra pessoa.

Parei na frente da nossa antiga moradia, completamente decadente e maltratada pelo tempo. Sabia um macete para entrar pela porta dos fundos, fazia isso por vezes. Trazia mamãe aqui nas épocas mais difíceis para tentar resgatar lembranças. Subi até o quarto principal, recebida por tábuas soltas e memórias:

1990
Ele tentou me bater e a mamãe quebrou o braço me defendendo. Lembro de desenhar corações e árvores desengonçadas no gesso.

1993
O ano em que ele finalmente nos deixou, levando boa parte dos móveis. Eu e ela abraçadas tentando se aquecer em cima da cama assistindo o final de Fera Ferida na TV 14 polegadas e comendo pipoca queimada.

2000
Meus quinze anos e a doença já começava a mostrar suas garras. Mamãe pediu para todos os conhecidos não deixarem ela esquecer da data, nem onde escondera o discman que me daria de presente. No mesmo dia confessei gostar de garotas. Ela já sabia.

2009
Fomos despejadas. Uma amiga da mamãe nos acolheu até eu encontrar um segundo emprego e conseguir uma kitnet para morarmos. Quando nos mudamos, coloquei ela na cama e assistimos Senhora do Destino comendo pizza fria.

2015
Finalmente me formei na faculdade. Tentei levá-la na formatura, mas ela não conseguia mais se lembrar de mim. Sua primeira morte.

2017
Conheci Vanessa durante o bico na loja de discos. Ela procurava um LP da Rita Lee e eu consegui um desconto. No outro dia ela retornaria com café e convite para o cinema.

2020
Segunda morte de mamãe. Única memória que escolhi apagar.

2021/2022
Eu e Vanessa passamos a virada juntas em uma praia pequena. O brilho dos fogos refletindo nos seus olhos cor de mel, o sorriso fácil alimentado pela embriaguez, o beijo com gosto de cerveja barata e maconha, o empenho em me fazer aproveitar cada momento. Eu decidi finalmente ficar. Sim, quando voltássemos para casa, eu ficaria.

2022
Preparei café da manhã para minha mãe morta há dois anos.

Meu celular despertou anunciando o fim das minhas vinte e quatro horas. No bolso do casaco, além do dispositivo, encontro meus remédios para dormir. Não me recordo de os ter colocado ali, mas entendi a mensagem. Escrevo essas memórias no bloco de notas para tê-las frescas e aproveito minhas últimas lágrimas.

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