Rosemary deslizou para a esquerda pela milésima vez, enquanto terminava a terceira taça de vinho. Eles estavam perdendo dinheiro. Se fosse necessário pagar por dislikes ao invés de likes no Tinder, seus donos estariam ainda mais bilionários, se é que isso era possível. Casado sigiloso: passa, casal procura onde só a mulher aparece: passa, “quem se define se limita”: passa. Não era nenhuma sonhadora — havia desistido do amor no segundo empresário de NFT — a essa altura, só queria uma foda razoável sem precisar abandonar todo o seu amor-próprio, se conseguisse dar algumas risadas, seria lucro. Até cogitou o “sugar daddy submisso” que surgiu no seu feed certa vez: ser paga para bater em homem pareceu bem atrativo após ouvir sobre bitcoins por duas horas no último encontro.
Suas mãos estavam prestes a continuar o movimento repetitivo quando uma foto vermelha acompanhada por uma descrição em caixa alta chamou a sua atenção:
“LILÛ É O QUE VOCÊ PROCURA. LILÛ É O QUE VOCÊ DESEJA. LILÛ SABE O QUE VOCÊ PRECISA. LILÛ É UMA ENTIDADE MÍSTICA ESPECIALIZADA EM ENCONTRAR O PARCEIRO IDEAL PARA JOVENS (OU NÃO TÃO JOVENS, SEM PRECONCEITOS) DONZELAS E RAPAZES (JÁ FALEI QUE É SEM PRECONCEITOS?) BASEADO NO SEU MAPA ASTRAL, SEM COMPROMISSO. LILÛ, O ORIGINAL. RECUSE IMITAÇÕES.”
Era isso, Mãe Dináh encontra Tinder. De uma coisa Rosemary não podia se queixar: aquele aplicativo era entretenimento garantido. Ela tirou print para enviar no grupo de amigas do WhatsApp — uma pérola como aquela não podia ser perdida — e deslizou para a direita. Encalhada sim, sem senso de humor, nunca.
A primeira mensagem veio logo em seguida ao match, o que fez a moça questionar se poderia ser uma resposta automática. Não sabia se o Tinder Premium possuía esse recurso, negou-se a ir tão baixo.
“Olá Rosemary Aparecida! Somos o Lilû.”
“Somos? Achei que você era só um, Lilû. Não sou muito adepta a suruba, sabe.”
“Somos legião. Não se preocupe, encontraremos exatamente o que você deseja.”
“E quanto vai me custar essa brincadeira?”
“Dependerá do serviço solicitado, mas não se preocupe, nunca cobramos nada que nossos clientes não possam pagar.”
“Muito bem, Lilû. Encontre o meu príncipe encantado.”
“Ah, mas você não quer um príncipe encantado, quer Rosy?”
Sentiu o corpo enrijecer na cama e não notou quando sua respiração tornou-se mais rápida por alguns segundos. Eles deveriam ter visto alguém chamando ela pelo apelido no seu Instagram lincado ao perfil. Sim, só poderia ser isso. Quanto a suas preferências, era necessário apenas dois neurônios para unir o “tenho local” e as fotos de biquíni. Afastou a paranoia com um gole de Salton e decidiu se divertir.
“Não, Lilû. Quero uma foda gostosa, consegue me ajudar?”
“Claro Rosy, estamos aqui para você. Gostaria de umas boas risadas também?”
“Como sabe disso?”
“É um serviço popular.”
“Claro, por que não? Uma foda inesquecível, meia duzia de risadas e um cachorro-quente sem ervilha.”
“Certo Rosy. Pode me passar sua data e hora de nascimento?
“Vocês não conseguem descobrir isso pelas minhas redes sociais?”
“Sim, mas é indelicado.”
“21 de junho de 1993, meia-noite”
“Hum… Câncer.”
“Isso é ruim?”
“Com Touro, sim. O bichinho fica mal”
Ela soltou o celular por um momento enquanto ria solto. Adorava piadocas idiotas, o administrador da conta estava de parabéns. Será que era solteiro?
“Quando você gostaria do serviço, Rosy?”
“Hoje a noite”
“Certo. Fica para hoje às 3h da manhã, você não dorme cedo, não é Rosy.”
“Não. Você ainda não me disse o preço Lilû.”
“Gostaríamos do seu corpo. Apenas por um tempo, não vão ser meses, apenas alguns dias.”
“Bom, se vocês entregarem tudo o que prometeram podem ficar com ele todas as noites hahaha”
“Que bom, Rosy. Temos um trato então?”
“Claro, Lilû.”
O símbolo de pessoa digitando apareceu na tela. Rosemary ficou esperando a mordida: perguntas sobre seu endereço, cartão de crédito e afins, porém elas não vieram. Preferia mil vezes indagações sobre o seu CPF.
“Vejo você em breve, Rosy. Aproveite o seu vinho.”
Rosemary esbarrou em taça e garrafa tentando se afastar do celular, como se isso fosse mantê-la segura. Sentiu o caco de vidro rasgando a pele fina da mão, quase encontrando o carpo, muito antes de conseguir assimilar o som dos objetos quebrando. O cheiro férreo se misturou ao álcool invadindo o quarto em meia luz e o silêncio, previamente interrompido pelo partir de vidro, agora só era quebrado pela respiração da moça. Sem se importar com o ferimento ou a integridade de seus móveis e paredes, ela acendeu a luz e olhou pelas janelas: morava em um andar alto, à sua frente apenas a lateral de um prédio. Ninguém a observava por ali, ainda assim, sentia-se invadida, vigiada. Vasculhou o apartamento de 30 m² em poucos segundo, procurando uma ameaça desconhecida antes de se certificar que a porta estava bem trancada.
Voltou ofegante para o quarto, só agora se dando conta do ferimento e do rastro de sangue deixado pelo apartamento. Talvez fosse bom, caso alguém invadisse ficaria assustado com o sangue e iria embora. Deixou-se cair na cama, sua visão estava turva e o corpo começava a ficar mole. Chegou a usar a blusa do pijama para estancar o sangramento, mas isso não evitaria um pequeno desmaio. Estava tudo bem, estava segura, poderia descansar um pouco. As últimas coisas que seus olhos castanhos viram antes de ceder ao cansaço do corpo, foram o relógio da Alexa marcando 3h da manhã e tentáculos negros segurando seus pulsos.
*
Acordou nua e com o interior das coxas úmido. Lembrava de um sonho de horror e prazer. Cada centímetro do seu corpo sendo explorado e estimulado por um ser de beleza indescritível, assim como sangue, tentáculos e uma bocarra negra cheia de caninos expelindo um líquido putrefato enquanto a engolia. Olhou para a mão esquerda procurando o ferimento do qual recordava do sonho e ficou aliviada ao encontrar a pele fina apenas com uma cicatriz. Observou chão e paredes notando apenas o mofo e a umidade de sempre. Bebeu um copo d’água após vomitar bastante e sentiu-se revigorada, apesar da barriga inchada. Nada que um engov não resolveria. Adicionou uma nota mental para se hidratar mais entre os vinhos da próxima vez. Ou não. Estava satisfeita com o proporcionado pela sua imaginação ébria, talvez devesse repetir tudo igual.
Voltava da cozinha para o quarto quando notou um embrulho branco em cima da mesa da sala, não lembrava de ter pedido nada na noite passada. Rosemary se aproximou para examinar o pacote e leu duas palavras que a fizeram soltar o copo, levando as mãos à boca:
“S/ Ervilha”.
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