— Gazu, pode segurar o Alecrim um momentinho?
O Cavaleiro dirigiu a pergunta às sombras enquanto um machado acertava seu escudo pesado e ele segurava, impassível, um pequeno vaso com dois raminhos de alecrim.
— Sabe, Broque, — O pequenino emergiu de lugar incerto e cravou uma adaga no peito do brutamontes prestes a acertar o flanco do companheiro — a furtividade é uma parte essencial da minha estratégia ofensiva. Poderia parar de revelar a minha posição em todas as lutas?
— Desculpe. É difícil saber se você está escondido ou não. Eu sempre vejo você.
— Que desrespeito.
Gazu pegou o vaso e sentou-se no topo de uma árvore, coçando a orelha esquerda como sempre fazia quando se sentia ultrajado. Broque, agora com a mão livre, pegou seu martelo de guerra das costas e mandou o restante dos bandidos ou para os braços da Deusa Mãe, ou para os confins da floresta em fuga desesperada. Voltou-se para Gazu, sem precisar olhar para cima e perguntou:
— Tudo bem com o Alecrim?
— Dentro do possível. — disse girando a planta 360 — Perdeu mais algumas folhas e está um tanto amarelado. Deveríamos colocar mais água?
— Acho que não, Rosi avisaria se fosse preciso regar bastante.
Ambos baixaram o olhar. Três dias antes, a terceira integrante do grupo fora atingida por uma bola de fogo e consumida em cinzas. Ela enfatizava que, quando morresse, eles deveriam cremá-la, misturar as cinzas em sua planta favorita e enterrar ao pé da sua árvore-mãe. Pelo menos puderam pular a cremação.
— Tem certeza que não podemos revivê-la?
Perguntou Broque, com um fio de esperança.
— Não tenho, mas acho difícil. Sequer temos o corpo.
— De repente podemos resgatar a alma dela e colocar em um urso. Ela adorava ser um urso. Quando vê ela aprende a virar humana. O princípio deve ser o mesmo.
— Parece difícil.
— Acho que vale ao menos tentar. Se eu não tivesse perdido meus poderes de Clérigo, poderia trazê-la de volta.
Gazu franziu o cenho.
— Você não era um Clérigo da Guerra?
— Ainda assim.
Gazu revirou os olhos e desceu de maneira graciosa. Ele afofou a terra do vaso, garantindo que ambos os galhos restantes estavam bem firmes e fez um sinal para seguirem viagem. Ao longo das horas, mais folhas caíram e deixaram a muda com aparência estiolada.
— Eu não sei como a Rosi consegue… conseguia, carregar essa planta no bolso, com as raízes à mostra, e deixar ela sempre verde. Eu to dando a alma para esse raio de planta e ela parece que pegou um amarelão. Acho que a gente devia ter falado com aquele Druida lá na cidade.
— Tá louco? Você viu como ele cortou sem piedade as folhas levemente manchadas daquela, daquela, fera?
— Hera.
Corrigiu Gazu. Broque prosseguiu:
— Hera, que seja. Se ele visse o Ale ia colocar ele fora.
— Ale?
— Alecrim parece muito distante, Rosi diz que faz bem para as plantas se sentirem acolhidas.
— Broque, você estava o tempo todo falando com a Rosi sobre plantas, não aprendeu nada de útil? Você não é um sábio de não sei das quantas?
Broque, o meio-gigante com mais de dois metros de altura, corou e se encolheu, respondendo em tom envergonhado.
— Minha sabedoria é só sobre guerras, cidades e cebolas. Além disso, eu só gostava de ouvir ela falar, eu não entendia nada. Mas ela ficava tão linda falando das Samantas e Filomenas.
— Marantas e Filodendros.
— Que seja. — retrucou já sem paciência — Se sabe tanto porque não cura o Ale?
— Porque, frustrantemente, jardinagem teórica é muito diferente da prática. Juro que estou fazendo o melhor, mas…
Broque puxou martelo e escudo e colocou-se na frente de Gazu.
— Tem alguém vindo.
Uma criança, um pouco maior que Gazu, saiu do meio das árvores carregando uma cesta. Ela viu o vaso nas mãos do pequenino e apontou:
— É essa aí! Essa é a plantinha que a mamãe pediu. Vocês poderiam me dar um galho?
Broque protegeu ainda mais Gazu e Ale.
— Não podemos não. Deve ter mais por aí. Você parece esperta, vai encontrar.
— Mas meu irmãozinho está doente, mamãe precisa disso para fazer o remédio, é urgente!
Broque sentiu uma pontada de dor de cabeça. Se ainda fosse um fiel devoto do Deus da Guerra, não precisaria passar por esses dilemas morais. Uma bicuda na criança encerraria o assunto. Sabia que Rosi não hesitaria em ajudar, ao mesmo tempo, precisava cumprir a promessa. Já falhara em protegê-la, não poderia deixar de realizar seu último desejo. Gazu resolveu o impasse.
— Toma, o galho caiu. Espero que consiga fazer alguma coisa com isso. Está em um estado deplorável.
Na verdade, olhando melhor, ele achou que o galho caído estava muito mais verde do que o remanescente. Mas ele já desistira de entender os mistérios das plantas. A garotinha abraçou as canelas de Broque e afastou-se correndo de Gazu quando ele mostrou uma adaga quando ela fez menção de abraçá-lo. Os dois seguiram viagem.
— Gazu, você tirou o galho da planta?
— Claro que não — respondeu ofendido — Sabe que não tenho fraco por crianças. As pessoas já deveriam ter aprendido a fazer umas quatro ou cinco caso uma ou duas não vinguem.
O Cavaleiro deu de ombros e apressou o passo. Já era possível contar as folhas restantes no galho e agora estavam perto. Mais algumas padeceram e ele sentiu um nó na garganta.
— Sabe, Gazu. Eu nunca disse pra ela que fui eu quem derrubou o vaso das espadas da Justiça. Coloquei a culpa na Aveia. Ela nunca ficaria brava com a gata.
O pequenino ficou em silêncio, limitando-se a dar ocasionais tapinhas na parte de trás da perna do companheiro.
— Também nunca disse que estava apaixonado por ela. No início, me tornei cavaleiro só para ela ter orgulho de mim.
— Se serve de consolo, acho que ela sabia. Bom, eu sabia. Ninguém em sã consciência ficaria tanto tempo ouvindo sobre raízes e adubos, com um sorriso no rosto, sem estar sofrendo dos males do coração. E você se tornou um cavaleiro bem razoável.
O meio-gigante sentiu-se violado, mas o sentimento logo foi embora ao avistar as marcas nas árvores, sinalizando o caminho para o esconderijo deles. Estavam quase em casa.
Fuligem, o lobo atroz e guardião da entrada da base, estava cabisbaixo e não fez festa quando os avistou, limitando-se a soltar um uivo taciturno. Eles chegaram à base da árvore-mãe de Rosmeri e enterraram a muda de Alecrim que contava com apenas uma heroica folha. Broque, Gazu, Fuligem, Aveia e todo o séquito de animais acolhidos por Rosi ficaram em volta da planta, em silêncio.
Passada algumas horas, Broque permanecia sentado no mesmo lugar, quando um leve tremor na terra chamou sua atenção. As flores ao redor começaram a murchar e as folhas da árvore caíram conforme o tremor aumentava.
— O que, em nome da Raposa Celeste, está acontecendo?
Perguntou Gazu surgindo de lugar incerto com uma toalha na cintura e adagas em mãos. Broque, além de um rosto inchado e vermelho, portava seu martelo.
— Menor ideia.
Uma mão saiu da terra onde outrora estivera o Alecrim mais sofrido de Mundo, seguindo por uma cabeça e um torso. Rosmeri emergiu sã e salva, a não ser por sua pele que mais parecia um tronco de árvore e os cabelos que definitivamente eram um aglomerado de folhas de Alecrim.
— Juro que não duvidei nem por um minuto que vocês conseguiriam — disse com um sorriso enquanto sacudia a terra do corpo rugoso. — Menos água da próxima vez. Podem me alcançar algo para vestir?
O corpo de Broque lembrou o que era vergonha e o tirou do transe. Ele então colocou o escudo pesado na frente de Gazu e arrancou-lhe a toalha, entregando-a para Rosi. O pequenino estava tão estupefato que não protestou, limitando-se a soltar um “Como?”. Ela prendeu a toalha ao redor do corpo e respondeu:
— É um antigo ritual Dríade. Seria muito complicado explicar e, avisar que minha vida dependia de vocês trazem a planta até aqui, provavelmente geraria uma ansiedade paralisante.
— Quer dizer que você está bem? — Começou, Broque. — Vai viver e ficar com a gente.
— Claro, tonto. Acho que em alguns meses terei pele e cabelos novamente e estarei nova em folha haha. Em folha, entendeu?
— Broque a abraçou erguendo-a do chão. Rosi retribuiu o abraço e disse de um jeito maldoso:
— Eu ouvi tudo o que vocês falaram enquanto eu era um Alecrim indefeso. Acho que você tem algo a dizer, não é, Sir Broquel?
O meio-gigante corou, colando-a no chão e olhando para os pés.
— Foi sem querer. Eu me virei e o escudo bateu no vaso e quebrou tudo. Mas em minha defesa, a Aveia de fato quebrou muito mais vasos do que eu.
Rosi e Gazu se olharam, caindo na risada. Apiedando-se de Broquel, Rosi subiu em um tronco próximo e beijou os lábios do seu cavaleiro.

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