Os grãos de areia correram pela pele alva de Jane procurando o caminho para seus olhos. Ela afundou o chapéu na cabeça e virou o rosto a tempo. O seu cavalo sacudiu a crina e empinou as patas dianteiras, só não sabia se era devido à tempestade de areia, que se recusava a partir, ou em solidariedade aos colegas equinos da caravana abandonada, que faziam o mesmo. A cena era igual às outras encontradas pelo caminho: mantimentos intocados ainda organizados nas caixas, alguns sacos de dormir, cavalos inquietos e é claro, areia por tudo.
Não sabia quando tudo começara. Certa vez, Jane escutou o vento testar a resistência das janelas de casa. Naquele dia, a loja de armas não abriu e ela não voltou a ver o lojista. Em uma manhã, Ned reclamou da poeira. A areia parecia entranhada na madeira, o cheiro de terra já era o aroma natural da casa. O bebê esfregava as mãos gordinhas no rosto rosado, soltando espirros esporádicos e chorando quando os grãos encontravam suas gengivas.
Ouviu um barulho, um murmúrio vindo de algum lugar da caravana. O cavalo se recusou a avançar por entre as carroças e ela continuou a pé, revólver em punho. Os penduricalhos que outrora adornavam o berço do filho, chacoalhavam suspensos no cabo da arma, acompanhando o som das esporas. O ruído se fez mais claro: vinha da primeira carroça, uma voz — humana. Depois de tanto tempo sem ouvir outros seres humanos, Jane duvidou, mas era. Precisava ser. Tentou em vão firmar a mão da arma antes de afastar o pano. No fim, torceu para não apertar o gatilho cedo demais.
— O que você quer comprar? Tenho amoras, amoras maravilhosas.
A voz saía baixa e arrastada de um homem de meia-idade. Ele olhava para Jane sem vê-la, preso em um transe.
— Você está bem? Quem é você?
— O que você quer comprar? Tenho amoras, amoras maravilhosas.
— Não preciso de amoras, meu bom homem. O que aconteceu? Está ferido?
— O que você quer comprar? Tenho amoras, amoras maravilhosas.
A litania prosseguiu, à revelia das perguntas de Jane. Ela tirou o poncho, colocando-o nos ombros do homem e virou o olhar — não conseguia encará-lo muito tempo, ele a lembrava de Ned. Talvez fosse algo no corte de cabelo ou simplesmente culpa. Culpa por não pensar nele tanto quanto em Bobby Holly e suas músicas, culpa por esquecer detalhes. Tinha medo de o mesmo acontecer com o bebê ou com Bobby, de que o tempo levasse embora os detalhes do seu rosto, de como caminhava, como apertava os lábios ao sorrir. Ainda recordava o que fazia quando notou não lembrar mais a cor dos olhos de Ned. Às vezes se questionava se o filho tinha mesmo a pele tão rosada quanto lembrava ou se era apenas sua cabeça poupando-a da dor do esquecimento.
Não percebeu a ausência do murmúrio. Ia mandar o homem subir no cavalo quando viu o poncho no chão, a areia lutando para cobri-lo. Mais um.
Jane cavalgou de volta à cidade. Passou pela igreja, pela delegacia e evitou olhar para sua antiga casa. Dormia no saloon agora. Empurrou as portas e sentou-se no bar, encarando o piano onde cansara de ouvir Bobby Holly tocar para bêbados e para ela. Até o instrumento ansiava por alguma companhia além dos grãos malditos.
— Você não deveria mais estar aqui.
Jane apontou a arma para a voz grave vinda detrás do balcão. Pertencia a um homem alto, traços finos. O cabelo loiro empapado de brilhantina combinava com as roupas finas demais para o local.
— Quem é você? Como entrou aqui?
— Isso não importa agora. Você precisa ir embora. Todo mundo já foi.
— Pra onde? Onde estão meu filho, Bobby e Ned?
Já tivera mais pessoas do que gostaria na mira do seu revólver e nenhuma mostrara tão genuína indiferença quanto o homem. Ele deu a volta no balcão sem sequer encarar Jane e sentou-se ao seu lado, ainda mais próximo da mira.
— Eles foram com a areia, garota. Você deveria fazer o mesmo.
— Não — disse entredentes, engatilhando a arma — me diga o que fazer. Eu tenho a arma, eu faço as perguntas.
— Vejo que ainda ficaram vestígios do meu trabalho em você. — disse soltando uma risada tímida — Eu era péssimo com frases de efeito.
— Do que você está falando? Eu nunca vi você antes.
— E mesmo assim, você me pertence.
— Porra nenhuma! Eu vou perguntar só mais uma vez: o que você fez com eles?
— Eu criei eles para você, Jane. Menos Bobby, ela foi minha criação, mas não era para você. Eu os criei e apaguei. O mesmo deveria ter acontecido com você.
Jane ouvia as palavras sem conseguir dar sentido a elas. Tentou atirar, mas sua mão não obedeceu ao comando.
— Horrível, não é? Você adora atirar, é a sua melhor habilidade. Não poder atirar em mim, uma lei antiga.
— Pare.
— Você se lembra de estar grávida? Do seu casamento? Dos seus pais?
— Cala a boca.
— Você está em um deserto e vê uma tartaruga virada de barriga para cima, agonizando, por que não ajuda? Qual a melhor memória com a sua mãe?
— Chega!
O criador se aproximou, a arma apontada para si, tremia. Ele abaixou a mão de sua criação e tocou-lhe o rosto com carinho, trazendo-o para perto do seu. Sentiu o frio e a umidade das lágrimas que escorriam pela face, mais uma coisa não programada.
— Você é apenas código, garota. Só vá para a areia e tudo vai ficar bem. Prometo fazer melhor da próxima vez.
Jane olhou para a porta. A tempestade de areia já invadia o cômodo e as janelas nada mostravam senão poeira. Pensou nas mãozinhas do seu bebê, em todas as vezes em que Ned a abraçou quando chegara em casa, em quando cavalgara pelo deserto, pelos pântanos, montando acampamento em lugares obscuros, com a natureza aos seus pés. As idas ao mercado, as risadas no saloon. As mesas de pôquer já haviam sumido, deu uma última olhada para o piano de Bobby Holly antes que ele tivesse o mesmo destino. Oh, Sally Jane, oh, Sally Jane Though I’d love to stay forever this is why I can’t remain. Bobby sempre cantava antes de partir, cantava para ela.
Os olhos de Jane encontraram os do criador, um olhar não programado, seguido de um tiro não previsto na cabeça. O que nunca vivera, estava morto.

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