Patocalipse

Tudo começou quando eu tinha sete anos e morava em Quinze de Novembro, interior do Rio Grande do Sul. Bom, não foi quando tudo isso começou, mas vocês vão entender a ideia. Eu estava brincando perto do lago quando um pato-do-mato saiu correndo atrás de mim e me fez cair em uma vala funda. Desloquei o ombro e fiquei em prantos. O pato-do-mato, por sua vez, limitou-se a me encarar do limite do buraco, os olhos conscientes ornados pela vermelha ao redor e as asas batendo em regozijo sádico. Seus olhos traziam a morte e hipnotizavam. Não houve barganha ou piedade, ele atirou pedras com o bico e terra com as patas, sendo meu cruel carcereiro por horas até minha avó me encontrar. Quando ela me tirou do buraco, criei coragem e chutei um galho na cara do animal, sangrando-lhe o olho. Valeu a surra que tomei por isso.

Porém, o pato me marcara: eu não deveria ter sobrevivido a seu desejo assassino, tão pouco tê-lo ferido. Dia após dia ele veio nos visitar no sítio, às vezes sozinho, às vezes acompanhado por sua legião de seguidores que iam desde cruéis patos-do-mato até as aparentemente inocentes marrecas-pé-vermelho. Eles roubaram comida e até morderam o rabo da Belinha. Certa vez vi um dele segurando uma faca de corte com o bico. Infelizmente, eu era o único que presenciava a tirania deles e demorou anos para eu convencer minha avó a abandonar o sítio e ir para a capital. Na verdade, creio que o principal motivo fora o bullying que eu sofria dos peões e das outras crianças, mas o importante é que estávamos livres.

Ou pelo menos foi o que quis crer.

Durante meus trinta anos na cidade, presenciei poucas atividades suspeitas de patos. Os patos da capital, ao contrário dos do interior, ainda não haviam despertado. Passei por um episódio na Quinta da Estância acompanhando meus alunos. Tentei defender uma alma pura da influência vil dos meliantes, mas eles estavam em maior número e nos cercaram no lago. O miúdo quase se afogou e eu saí machucado e afastado com um laudo psiquiátrico.

Semana passada, tudo mudou. 

Eu estava em um longo tratamento para me convencer de que os patos sapientes não existiam e não poderiam me machucar quando acordei no meio da noite com a sensação de que alguém me observava. O quarto estava um breu (minhas persianas ficavam sempre fechadas, por motivos de segurança) e um tímido farfalhar vindo da sala rompia o silêncio da noite. Peguei minha rede, que deixava ao lado da cama, e fui na direção do barulho, o caminho iluminado somente pela lanterna do celular. A luz correu o comodo até refletir dois pequenos círculos amarelos. Foi então que o eu o vi novamente. As penas estavam mais surradas e brandava uma cicatriz no olho esquerdo. Jamais esqueceria aqueles olhos transmissores de loucura. Ele investiu em minha direção da mesma forma que fizera trinta anos atrás, as lamelas sedentas por sangue. Porém, eu estava preparado e não me deixei prender por aquele olhar satânico: arremessei a rede certeira na cara medonha, atrasando o suficiente para poder entrar no quarto e trancar a porta. Ele bateu e grasnou, o farfalhar ainda mais intenso atormentava minha mente. Tentei em vão abafar o som com o travesseiro e barriquei-me no meu quarto feito um covarde. 

Não demorou muito e os primeiros gritos e batidas de carro alcançaram meus ouvidos. A legião de patos tomou as ruas, eles tiveram anos para organizar o levante, anos para aprimorar sua inteligência e arquitetar um plano perfeito de dominação. Estou encurralado neste cômodo há uma semana. Ele gosta de ficar em silêncio e esperar alguma movimentação minha apenas para recomeçar o terror psicológico. Quando comecei a escrever este relato, podia ouvir dezenas deles lá fora, grasnando em uníssono e forçando a porta. Agora, perto do fim, devem estar perto das centenas. Prefiro morrer a encarar aqueles olhos novamente.



Leave a comment