Cheguei atrasado ao local do crime. Àquela altura os moradores do bloco estavam ou no conforto de suas janelas espichando o olho e cochichando ou no pátio fazendo perguntas relevantes como “Onde vamos parar?”. Quando me viram, devido à minha relação com a vítima, um silêncio respeitoso se instaurou no local.
Limpei a terra das mãos e entre bom dias, sinto muitos e demais amenidades, consegui chegar até o corpo e, desejando ter uns trinta anos a menos, me agachei para ver melhor. A causa da morte era óbvia: um corte limpo realizado em um só movimento por algo afiado.
— Igual às outras, não é?
A voz fanha vinha logo acima da minha cabeça. Vivi, do bloco C, estava parada com os braços cruzados e a testa franzida.
— Sim, garota. Igual às outras. Mas isso — Entreguei a ela um bloco de papel que estava próximo ao corpo e me ergui com dificuldade — É novo.
— Um talão de cheques? — Confesso ter ficado surpreso por ela saber o que era. — Quem usa talão de cheques nesse século? — E em seguida, ofendido.
— Foco, garota.
— É do Banrisul. Precisamos descobrir quem aqui tem conta nesse banco. Vai ser uma investigação longa.
— O dever nunca é fácil, garota.
— Mas precisamos fazer algo já, Seu Januário. — Disse soltando um suspiro mais digno de uma velha de oitenta anos do que uma menina de oito. — Ele não vai parar por conta. Já é o quê? A terceira só esse mês?
— Quarta. Teve a Dália semana passada. Por onde você andava, inclusive?
Apertou ainda mais o cenho e o lábio inferior se projetou para frente.
— Fiquei de castigo por tentar roubar o Pamonha, o gato da Dona Ana.
— De novo?
Ela deu de ombros
— Ele vive na minha janela, dou comida todo dia e às vezes até dorme comigo. Já é meu por uso campeão.
— Usucapião.
— E o que eu disse?
— Deixa para lá, garota. Vamos sair daqui, não há mais nada para ver.
Viridiana Victoria é uma menina magricela com astúcia e língua muito maiores do que seu bom senso. A conheci enquanto eu cuidava dos jardins e das árvores do bloco C e ela lia “O cão dos Baskervilles” usando uma lupa, pois as outras crianças do prédio roubaram seus óculos após ela chamá-los de sacripantas e, logo em seguida, de energúmenos por não saberem o significado de sacripantas. Recuperei os óculos através da autoridade advinda dos anos e os devolvi com um exemplar de “Cipreste triste”. Desde então, ela lê seus livros enquanto cumpro meus afazeres de jardineiro do condomínio. Uma amizade silenciosa e pacata, até os crimes começarem.
— Algo não está me cheirando bem, Seu Jano.
Disse Vivi andando de um lado para outro, uma mão no queixo e outra na boina xadrez, outrora minha e que virou dela por “uso campeão”.
— O que te incomoda, garota?
— Os cortes. São tão cuidadosos, quase parece que não tinha a intenção de machucar.
Me virei para pegar umas bergamotas na bolsa e esconder um leve sorriso. Atirei uma para ela e perguntei:
— Como assim?
— Sei lá, o assassino deve ter muito raiva delas para cortá-las assim, do nada. Contudo, são cortes muito cuidadosos.
— Pode ser um assassino metódico, tipo o do “Crimes ABC”.
— Pode ser.
Ela não parecia convencida. Quase conseguia enxergar as engrenagens daquela cabecinha trabalhando.
— Seu Jano — abaixou o tom de voz, em confidência — será que elas morreram mesmo?
— Certamente!
Disse com a minha melhor autoridade, sem saber se seria eficaz. Vivi desconversou.
— Vamos recapitular, quem foi a primeira vítima?
— Começou com a Jade do Bloco H. Foi uma das mais feias. Não foi corte, acho que usaram as mãos mesmo.
— Ou uma pá. Mas ele melhorou não? Com a Gardênia do Bloco D ele já usava algo cortante. Uma evolução clássica eu diria. — Vivi estufou o peito, empertigando-se — Estou lendo “A enciclopédia de Serial Killers” antes de dormir, sabia?
— Claro que está. — Falei rindo — Depois foi a Violeta, a Hera e a Begônia, todas do A.
— Isso! A Begônia! — Disse se levantando em um pulo — Volto já, Seu Jano.
E saiu em disparada, esbarrando em uns três vizinhos no caminho. Nunca enrolei tanto para replantar uma roseira, estava com medo de ir para outro bloco e ela não me encontrar.
Já estava anoitecendo quando ela voltou. Veio correndo com a cara vermelha, os óculos fundo de garrafa quase caindo do rosto e me abraçou com toda a força disponível naquele corpinho mirrado.
— Achei todas elas. Foi um mistério incrível, Seu Jano.
— Não sei do que você está falando, garota.
Respondi disfarçando o sorriso e uma lágrima fugaz.
— Ah, Seu Jano. Quem usa talão de cheques nesse século?

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