Janeiro de 1969

Eu estava dormindo embaixo da cama quando a mãe Elisa me acordou naquela noite. Lembro-me bem do cheiro do carpete — hoje nada mais do que cheiro de infância — e do calor emanado pelo corpo dela, ofegante. Apesar de a mãe Tânia ter me mostrado milhares de fotos de Elisa depois daquele dia, a imagem que guardei foi aquela: O cabelo crespo semi-contido por uma faixa colorida emoldurando o rosto redondo suado e com um hematoma no olho esquerdo cor de mel. Perguntei a ela se doía e fui respondido com um sorriso e um beijo no nariz. Não recordo o que ela disse, apesar de estar certo de ter me pedido para não esquecer.

A próxima memória tem início sonoro: fui conduzido até a janela do quarto pelo barulho ensurdecedor de música, “A Noite do Meu Bem” de Dolores Duran, Tânia me disse anos mais tarde. Olhei para o pátio de casa através da abertura, mascando minha fralda de pano que mantinha escondido por estar grande demais para aquilo. Vi minhas mães dançando, mãe Tânia com as unhas cravadas nas costas da mãe Elisa e o rosto enterrado no ombro dela. O peito subia e descia em ritmo acelerado. Às vezes, quando levantava o rosto, via que estava molhado o vermelho. 

Os vizinhos abriram as janelas e colocaram as cabeças para fora. Houve alguma comoção, desde palmas a xingamentos. A música repetiu algumas vezes e elas rodopiaram e rodopiaram pelo pátio, o avental xadrez de mãe Tânia ficava lindo quando Elisa a jogava para trás e a luz a preenchia por completo. Ela guardou aquele avental até o fim.

Elisa precisou empurrar Tânia algumas vezes para que ela a soltasse. Lembro-me dela beijando Tânia nos lábios e nas mãos várias vezes antes de entrar em casa e eu a ouvir saindo pela porta da frente. Eu a segui e não entendi porque ela estava sentada na varanda fumando enquanto Tânia me agarrava e saia correndo comigo em uma mão e malas na outra pela porta dos fundos.

Um dos vizinhos nos viu e ofereceu carona. Na época não entendi porque fomos na caçamba, cobertos por uma lona ou porque quando passamos na frente de casa havia pessoas estranhas lá e a mãe Elisa havia sumido. Perguntei muito sobre mãe Elisa nos dias e meses seguintes. Quando percebi que mãe Tânia desconversava e se trancava no quarto, parei de perguntar. 

Nunca mais vi minha mãe Elisa, a não ser em meus sonhos, com seu rosto suado, olho roxo e sorriso fácil. Mãe Tânia morreu ano passado. Fora uma ótima mãe, apesar do alcoolismo. Hoje, janeiro de 2022, danço Dolores Duran no quintal da nossa antiga casa enquanto minha esposa e filha acompanham o futuro na TV da sala.



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