Ao contrário da maioria, sempre achei West End um lugar deprimente. Moças cantando trechos de “Wicked” nas calçadas, ansiando por uma oportunidade que jamais chegará. Suas vozes misturam-se com as sirenes policiais e ambas se perdem nas noites chuvosas. Em meio a essa cacofonia, em um hotel de quinta categoria, um homem repousava de bruços na cama do quarto mais barato. Seus braços agarravam o travesseiro e apenas uma coberta puída o protegia do frio. Não fosse o cheiro nauseabundo da cadaverina e o tom amarelado da pele, poderia jurar estar apenas dormindo.
Minha reflexão foi interrompida por Malone e seu bigode.
— Elisa? O que tu ta fazendo aqui?
— Investigando.
— Haha, achei que tu tinha sido promovida a detetive não comediante. É um suicídio, princesa. Nada pra ver aqui.
— Tu já pode ir pra casa então. Eu encerro pra ti.
O conflito entre obedecer à ordem de uma mulher ou precisar ficar naquele buraco em um sábado à noite estava visível na estopa abaixo do nariz, dançando indecisa de um lado para o outro. Como esperado, escolheu por não sucumbir ao pecado de negar uma oportunidade de ir mais cedo para casa.
Dilema solucionado, voltei a atenção para a cômoda ao lado da cama, onde vidros de remédio executavam sua melhor performance: o conteúdo, comprimidos medindo metade de um mindinho, espalhados com cuidado; rótulo da embalagem, denunciando calmantes poderosos, bem visível. Engraçado alguém ter tanto trabalho para organizar os personagens principais e esquecer do coadjuvante: um copo d’água. Procurei nos poucos metros quadrados e não encontrei vestígio de qualquer bebida que pudesse ter sido utilizada para engolir aqueles comprimidos monstruosos. Encontrei, entretanto, na mesa bamba ao lado da porta do banheiro, uma caneta destampada e folhas em branco, estas com vestígios das letras escritas no papel que um dia esteve sobre elas.
— O dona.
A voz fanha vinda da minha nuca me sobressaltou. Para manter a dignidade, respondi ainda concentrada nos itens da mesa.
— É detetive.
— O detetive.
— O que foi?
— A gente encontrou isso na cama, ao lado do defunto. Não acho que seja dele.
Recebi um ziploc, dentro, uma abotoadura de ouro gravada com um símbolo conhecido por todos os policiais da cidade.
O Rose en Fleurs é um dos inferninhos mais populares do submundo de Londres, conhecido tanto pela variedade do “cardápio”, quanto por oferecer 50% de desconto para policiais. Uma vez no local, não demorou muito para ver vários rostos conhecidos, entre eles, o de uma antiga informante, responsável por me colocar naquela situação através de um telefonema desconexo. Chelsea me deu um sorriso preparado para clientes e veio em minha direção.
— E então?
— Não parece surpresa em me ver aqui. Não sabia que você trabalhava no Rose.
— Bem… É aqui que o sonho dos artistas vem pra morrer. Quando tenho sorte consigo até cantar antes de tirar a roupa.
— Você não me contou que seu amigo assassinado também trabalhava aqui.
— Imaginei que você fosse descobrir — ajeitou o cabelo atrás da orelha enquanto fitava um copo atrás de mim. — Pablo foi mesmo assassinado então?
— Talvez. Quando você me ligou, só disse acreditar que seu amigo tinha sido assassinado, mas não disse o motivo.
— Bem — Começou dessa vez se dirigindo a uma mesa à esquerda. — Ele vinha com um comportamento estranho, sabe? Andava assustado, olhando por cima do ombro. Ontem ele me disse que sabia coisas sobre o Patrão, algo sobre um porão no escritório dele. Na hora pensei que estivesse brincando, mas agora…
— Sobre o Patrão? Estranho? Encontramos um alfinete de ouro na cena, parece pertencer a um dos seguranças.
— Um dos seguranças? Claro que não! — Dessa vez os olhos azuis encontraram os meus — Os seguranças não usam abotoaduras.
Eu já estava com a mão no bolso traseiro da calça, quando olhei para Chelsea mais uma vez, dessa vez com atenção: A sombra preta intensa em desarmonia com o batom rosa choque, o cheiro do Chanel N°5 falsificado misturado ao suor de pessoas desconhecidas. De cara limpa quantos anos teria? Vinte? Dezoito? Pior? Há seis meses ela havia me ajudado a condenar detetives corruptos, possibilitando minha promoção e eu nem sequer perguntei seu nome verdadeiro.
— Um porão no escritório, certo?
— Sim. Foi o que ele disse.
Com uma mistura cuidadosa de charme feminino, boatos de vazamento para imprensa e é claro, a suspeita de homicídio, consegui um mandado de busca para o escritório. Encontraram a entrada do porão escondida por um tapete persa, uma manobra sem qualquer originalidade. No seu interior, apenas mais do mesmo. O par da abotoadura enfeitando o punho esquerdo da camisa encerrou o assunto. Timothy Timberly, também conhecido como Patrão, foi acusado de cárcere privado, rufianismo e assassinato. Minha foto escoltando o principal cafetão de West End estampou os jornais por semanas a fio, me garantindo um lugar especial na lista de odiados de mais um departamento.
*
O Rose en Fleurs estava sob nova direção e o desconto para policiais acabou. Precisei pagar a hora inteira e um quarto para conseguir conversar com Miranda. Ela atende por Chelsea durante o expediente.
— Como estão as coisas por aqui?
— Um lixo. Mas um lixo controlado. Pelo menos a nova dona não tem nenhum fetiche bizarro.
Ela aproveitou para tirar o salto e desfazer a postura de mulher fatal. Sentada na cama, com a coluna curvada e as pernas balançando, parecia uma repetente esperando o próximo ônibus.
— Miranda. O que aconteceu no porão?
— Eu… não tenho certeza. No início eles iam pra lá felizes, mas depois de um tempo… Eu nunca vi nenhum machucado, mas a gente sabe, entende? Depois de passar por certas coisas a gente sempre sabe. Chamei a polícia algumas vezes, mas nunca vieram.
Dessa vez fui eu quem escolheu um objeto inanimado como interlocutor. Com o rosto voltado para a janela, abri a boca algumas vezes para perguntar porque ela não me ligou, mas eu sabia a resposta: eu ainda era uma policial. Um pouco melhor, talvez, mas ainda policial. Queria poder dizer que teria agido diferente dos meus pares, mas seria mentira. Miranda ainda foi gentil o suficiente para me dar uma segunda chance.
— O que você fez com a carta, Miranda?
Esperava um choque maior, mas apenas a vi deitar na cama pelo reflexo do vidro.
— Está guardada. Era pra mim mesmo, ele não tinha mais ninguém. Foi a abotoadura que me entregou, né? Me dei conta assim que abri a boca, mas era tarde demais. Tu armou a arapuca direitinho, achei que fosse me prender.
— Eu ia. Mas fiquei curiosa pra saber porque alguém teria tanto trabalho para fazer um suicídio parecer um assassinato. Muito esperto ter sumido com o copo.
— Foi minha culpa de certa forma. — Sentou a minha frente, me obrigando a encará-la. Os olhos cheios d’água se recusavam a transbordar. — Eu achei a abotoadura enquanto levava uma bebida para o Patrão, ele nem deu falta. Devia ter dado ela pro Pablo, assim ele teria dinheiro pra fugir, mas fiquei tentada a pegar pra mim, pra investir na minha carreira de merda. Quando finalmente fui ao hotel entregar pra ele…
— Você viu o que aconteceu e resolveu fazer a morte dele valer a pena.
— É o mais próximo de justiça que conseguimos por aqui. — Calçou os sapatos e rumou para a porta, assumindo sua faceta usual antes de perguntar — Então, vai contar para a polícia?

Leave a comment