Chega do trabalho. De novo, mais uma vez. O cachorro faz festa, balança o toco de rabo, boca aberta, língua pra fora. Respira, solta. Respira, solta, respira solta respira solta. Um afago na cabeça, um petisco. Para. Senta. Repete. Amor verdadeiro. Não igual ao da esposa, ex. Foi embora sem retorno, não aceitou as rosas.
A cabeça dói. Mais uma vez, de novo. Que horas são? O sol já se pôs? Não sabe, houve um tempo em que sabia, antes da dor, antes do barulho. Há um barulho? Talvez. Às vezes tem dúvidas.
Leva a mão à testa. Agonia. Porém, algo mais, uma ondulação, pequena, fina, molenga. Ele aperta e ela se desfaz sob a pele, tal qual uma espinha cheia de pus. Sente cócegas no ouvido esquerdo, seguido por um rastejar úmido. Com os dedos em pinça, puxa os primeiros centímetros de um anelídeo gordo e marrom até ele se partir e uma parte retornar para a cavidade. O pedaço em sua mão dança, ignorando o aproximar da morte por desnutrição sem a cabeça que fugiu.
O sofrimento não cessa. Os sons, ainda mais fortes, escorrem do topo da cabeça. Será que sua moleira ficara aberta? O homem enfia a mão no topo do crânio e sente o calor de sua massa encefálica, assim como o movimentar pegajoso das pequenas criaturas que fazem dali morada. Elas mexem, enroscam, procriam, dançam, misturam seus tons com o rosáceo e criam abrigos víscidos entre as ondas do cérebro. Alimentam-se da repetição, ele sabe. Enfia as unhas por fazer no interior da cabeça e começa a removê-las, arrancando pedaços, regozijando-se com os corpos viscosos e desesperados entre seus dedos, sem ligar para os fragmentos de cérebro que acompanham ou para a dor agora excruciante, pronto para fazer tudo de novo, mais uma vez.

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