— Ninguém sai até eu descobrir quem foi! Marilene, puxa o Altemir pra dentro e tranca a porta.
Era comum ter algum tipo de comoção na cozinha da prestação de contas. Certa feita, uma vendedora de trufas fora retirada pelos seguranças por ser estritamente proibida a “transferência de propriedade de algo para outrem mediante pagamento de um preço estipulado” nos domínios do Centro Administrativo. Enquanto a pobre trabalhadora era escoltada, um funcionário gritou “E quanto ao livre mercado?” e outro respondeu “Livre mercado teu cu!” iniciando uma discussão não relacionada.
Pelo que pude perceber, o drama daquele dia envolvia o sumiço de uma ou mais marmitas.
— Eu não aguento mais! Já é a quinta marmita que some. Não bastasse isso, o meliante ainda leva os potes!
— Mas, querida. A pessoa precisa levar a comida dentro de algo, não é mesmo?
Marilene e sua cabeleira acaju poderiam ser definidas por seu substantivo favorito: querida. E, por este motivo, era simplesmente detestável. A palavra característica sempre vinha acompanhada de um sorriso apertado e uma balançadinha de cabeça. Havia também o agravante da colônia de rosas às oito da manhã, porém eu era o único a se incomodar com o odor.
A vítima, nossa querida supervisora, respondeu com o olhar enviesado que sempre usava para responder a comentários da mesma estirpe. A nós, reservou a bufada de quando não atendemos o telefone e a chamada cai no seu ramal. Não faríamos mais nada além de ouvi-la por um bom tempo. Para minha sorte, sempre chego mais cedo para almoçar e já estava com minha barriga cheia.
— Eu quero saber o que cada um estava fazendo entre onze e meia e meio-dia.
— Mas que absurdo! O que te faz pensar que foi um de nós?
O ultraje de Altemir me pegou de surpresa, nunca fora uma pessoa particularmente sensível. As bochechas do gringo oscilavam entre variações de rosa e ele mantinha uma passada pesada pela cozinha. Creio que, se botos cor-de-rosa fossem bípedes, seria algo muito próximo daquilo.
— Por que alguém sairia de outro setor para vir aqui roubar minha marmita?
— Por que alguém roubaria a sua marmita?
— Ora, é uma ótima marmita! A de hoje, por exemplo, era de atum com purê de batatas e ervilha. Diga-se de passagem, o larápio só rouba marmitas de frutos-do-mar.
— O gatuno das marmitas tem modus operandi? — meteu-se a estagiária, até o momento focada no seu smartphone. — Eu ouvi um podcast sobre isso.
— Sobre roubo de marmitas?
— Não, serial killers.
— Tem um serial killer entre nós? Ai meu Deus, minha pressão.
Marilene levou as mãos à cabeça e se deixou cair na cadeira do refeitório. Altemir apressou-se em abaná-la com um guardanapo de pano um tanto sujo.
— Menos, Marilene. É só um gatuno de marmitas.
— Tem até apelido de serial killer.
— Chega! Eu só quero saber onde cada um estava no horário do crime!
— Eu saí para buscar um energético — comecei para acabar logo com o drama — depois subi para esquentar a minha marmita e aqui estou desde então.
— Alto lá, espertinho! Você acaba de se entregar! — Altemir ergueu-se triunfante, esquecendo-se de sua paciente. — Desde quando se esquenta salada? Todo mundo sabe que tu é vegetariano! Caso encerrado. Marilene, abre a porta.
— Não te mexe, Marilene. Se ele é vegetariano, porque roubaria marmitas de frutos-do-mar?
— Peixe pode comer, peixe não tem alma.
— Eu não como só salada.
— A gente não deveria estar concentrado em evidências? — Interrompeu mais uma vez a jovem, agora guardando o celular no bolso e assumindo uma postura austera — A Marilene tá sempre pegando provinhas das marmitas alheias, por exemplo.
— Mas que audácia! — Ergueu-se a acusada com a pressão restaurada — Eu sou con-cur-sa-da, querida. Não preciso ficar roubando marmita. Já você, mocinha, é muito mais suspeita! Nem vale-alimentação tem.
— Mas eu tenho Restaurante Universitário, minha senhora. R$1,60 o almoço e muito melhor que essa sua gororoba aí!
As marmitas da Marilene de fato pareciam sempre ter passado por alguma calamidade. Ontem mesmo ela trouxe umas almôndegas que passariam facilmente por evidências saídas direto de um dos podcasts da nossa estagiária. O micro-ondas, por sua vez, ficou parecendo uma cena de crime, para minha agonia.
— A mocinha tem um ponto, Marilene. Ontem mesmo você comeu metade da minha marmita só em provinhas. Larápia encontrada! Podemos dar o assunto como encerrado?
Altemir já havia espiado pela janela umas cinco vezes àquela altura. Estava muito empenhado em tentar ver algo entre as mesas dos fundos e levou a mão ao bolso esquerdo da calça incontáveis vezes em busca do celular esquecido fora do seu atual cativeiro.
— Mas que grosseria! Suspeito está você, Altemir querido. Desde que este assunto começou, o senhor está uma pilha de nervos, querendo pôr a culpa em todos! Se tem alguém parecendo culpado, é você!
— Que audácia! Eu só quero trabalhar! Diferente de vocês!
— Aí forçou, né Altermir? Essa foi a primeira mentira deslavada que soltaram aqui.
Fui obrigado a concordar.
— Tá bom! Eu quero ver o amistoso do Brasil. Já deve tá na metade do primeiro tempo e a gente preso aqui por causa de uma marmita!
— Agora sim.
Fomos obrigados a rir, surpreendidos por um minuto de inocência. Quase esquecemos da presença de um criminoso entre nós e definitivamente esquecemos onde estávamos, até uma voz vinda da porta nos lembrar.
— Mas o que está acontecendo aqui?
O tom de salário de cinco dígitos do “chefe dos chefes” bateu nos ouvidos do proletário como uma flecha e o instinto de sobrevivência fez nossos olhares delatarem nossa supervisora. Já não bastasse ser vítima do larápio, agora precisaria se explicar. Quase senti pena.
— Tenório… A gente tava…
— Farreando, tal qual uns desocupados sujando o nome do funcionarismo público! Enquanto isso, eu atendia os chamados de todos os municípios. O prefeito de Rolador tá possesso, pois algum de vocês contestou a compra de 10000 palitinhos saborizados pro hospital. As criancinhas estão tristes.
— Tenório, o município tem 2000 habitantes…
— Não interessa! Quero todo mundo em suas respectivas mesas agora!
A comoção do dia acabou e voltamos para a nossa rotina enfadonha. Devido à nossa transgressão, a TV do setor foi desligada e Altemir ficou sem falar conosco até precisar de moedas para a máquina de café.
Todos já haviam partido para suas casas quando fui até a geladeira do quinto, pegar a marmita de frutos-do-mar. Aproveitei para mandar uma mensagem para o Seu Ronaldo, porteiro lá do prédio, e passar o cardápio da noite.
Confesso que fiquei com um pouco de pena da supervisora, mas onde já se viu esquentar peixe no micro-ondas da empresa. Talvez eu passe a devolver os potes.

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