“O silêncio se escorava com equilíbrio na madeira e nas pedras da Casa da Colina, e o que entrasse ali, entrava sozinho.”
— Na verdade, nós estamos em três, Sinistra. Já começou a mentirada.
— Aff, Cabeça. Tu entendeu o que eu quis dizer. Assim fica muito mais… sinistro.
— Fica muito mais mentiroso, isso sim! A gente tá aqui para fazer um experimento científico. Barsa, qual a história do lugar?
— Bem, a casa foi construída em 1871 por —
— Que mané experimento científico. A gente veio aqui pra escrever a melhor história de fantasmas do mundo!
A discussão, intercalada por uma mostrada de língua e outra, se instaurou entre Cabeça e Sinistra. O primeiro mostrava a Kodak surrupiada do irmão, os walkie-talkies e o detector EMF que ele mesmo construiu com a ajuda do professor de ciências. Já a segunda, exibia os bloquinhos de anotação e explicava, pelo walkie-talkie, como eles precisariam estar autografando na feira do livro do próximo ano, afinal a vida era curta e eles já estavam com doze anos.
Barsa, por outro lado, puxou a manga da camiseta Ramones para esconder os hematomas recentes nos braços e encarou a Casa da Colina. Havia alguma coisa naquela arquitetura do Brasil Império que lhe causava calafrios. Talvez fosse uma empatia transcendental por seus antepassados ou apenas o mofo e a decadência estampados nas paredes iluminadas pela meia luz do pôr do sol. Repassou a história ponto a ponto em sua mente antes de cumprir com seu papel de apaziguador da turma e fazer os amigos entrarem na casa.
Foram recebidos com poeira e deterioração. Os últimos raios do crepúsculo jogaram luz em um tapete persa comido por traças sobre o qual móveis dos anos vinte jaziam esperando serem levados pelo tempo. Exploraram o primeiro andar, resolutos: Cabeça tirou fotos, Sinistra elaborou frases poéticas e Barsa curtiu a companhia dos amigos.
— Ok, Barsa. Qual a história do lugar?
— A casa foi construída em 1871 em um estilo —
— Não. A parte sinistra.
— Ah. Bem. Essa casa também é conhecida como a casa das crianças perdidas. Reza a lenda que crianças que ficam muito tempo nessa casa não saem dela com vida.
Silêncio na Casa da Colina.
— A professora Ângela disse que a pré-adolescência começa aos dez anos, então acho que a gente tá bem.
O alívio mal assentou e um ranger tímido se apresentou ao grupo. Era constante e vinha de algum cômodo do andar de cima. Sinistra agarrou seu bloquinho de notas e tomou a frente, mesmo com o tremor visível se propagando pela lanterna, assim como as suas companheiras, as únicas fontes de luz na Casa da Colina. Cabeça seguiu pálido, com seu aparelho EMF a postos. Não demorou muito para uma fileira de bambas gastos percorrer o assoalho do segundo andar em direção a origem do ruído e estancar na porta escancarada de um dos quartos.
— Cabeça, Barsa, vocês estão vendo isso?
Obteve como primeira resposta os zunidos do aparelho detectando alterações eletromagnéticas no local. Os olhos de Sinistra fitavam uma cadeira de balanço no centro da sala, movendo-se para frente e para trás, sem ação humana ou da natureza.
— Dizem — disse Barsa — que a última vítima da casa foi um garotinho. Foi diagnosticado com tuberculose poucos dias após chegar a casa, morreu em menos de uma semana. Dizem também que ele… na real é só boato.
— Dizem que ele o que, Barsa?
— Dizem que ele morreu em uma cadeira de balanço.
Naquele momento, estrondos ecoaram pela casa: batidas fortes que pareciam vir de dentro das paredes, do chão, do teto. Cabeça reuniu toda sua coragem científica para fotografar a cadeira antes de ser puxado por Sinistra. Os três desceram as escadas entre berros e empurrões, as mentes jovens se recusando a registrar as portas batendo sozinhas e as pancadas cada vez mais altas lutando para escapar das paredes.
Já podiam ver a saída quando um grito rouco nunca ouvido os paralisou: em frente à porta da cozinha, Barsa gritava. Atrás dele, o espectro disforme de um garoto com roupas antigas o agarrava pelo pescoço e pela cintura. Foi o tempo de uma troca de olhares antes de a entidade puxá-lo para a escuridão da cozinha, a lanterna do amigo caído piscava no assoalho após o baque com o chão.
Barsa caiu de bunda no azulejo duro. O pescoço ainda arrepiado onde a mão fantasmagórica tocara. Do seu lado, o garoto morto o encarava. O rostinho lânguido, marcado pela tuberculose, trazia os olhos opacos extasiados, quase vivos. A boca arroxeada imitava um sorriso.
— Fica longe da nossa Enciclopédia favorita!
Um objeto irrompeu cozinha adentro, indo parar na frente do espectro. O aparelho EMF do Cabeça piscou de um jeito estranho antes de soltar faíscas para todos os lados. O espírito pareceu se assustar e se afastou, dando a Sinistra a brecha necessária para entrar, agarrar Barsa pela mão e sair correndo.
Só pararam ao primeiro sinal de civilização: a locadora do Seu Gerson.
— Eita! Acho que perdi meu bloquinho na nossa fuga sinistra.
— E o Cabeça perdeu o aparelho EMF dele por minha causa também. Desculpa, pessoal.
— Desculpa? Essa foi a coisa mais sinistra que já me aconteceu! Quem precisa de bloquinho? Vai, me conta tudo. Como foi quase ser morto por um fantasma?
— Tá louco? Foi irado! E até parece que a gente ia te deixar pra trás, nós somos tipo os formigueiros, um por todos e todos por um.
— Mosqueteiros, Cabeça.
— Não estraga o momento. Vai, conta tudo. Tu conseguiu ver se ele atravessa parede?
Já passava das onze quando Sinistra e Cabeça foram para casa, já antecipando o xingão que levariam dos pais e combinando uma fuga do castigo para o dia seguinte. Barsa fingiu tomar o caminho de casa e quando os amigos o perderam de vista, mudou o trajeto para a Casa da Colina.
Entrou sem cerimônias e subiu para o quarto da cadeira de balanço.
— Alfredo? Alfredo, cadê você?
— Bu.
Barsa se sobressaltou e depois riu. O semblante macilento do garoto morto fez o mesmo. O menino vivo tirou alguns cobertores e bolachas da mochila enquanto conversava com o amigo.
— Você se machucou?
— Não, só fez cócegas. Eu adorei! Podemos assombrar seus amigos de novo?
— Ainda bem que todo mundo se divertiu. Desculpa, não achei que eles fossem voltar.
— Eu disse que eles iriam te salvar. Meu pai dizia que ele nunca mais teve amigos como os que teve aos doze anos. E você, se divertiu?
— Bastante, mais do que eu esperava. Posso passar a noite aqui?
— Claro! Os seus pais foram viajar de novo?
— Tipo isso. Hey, eu trouxe o Jogo da Vida.
— Achei ofensivo.
Nota da Theo: A frase inicial: “O silêncio se escorava com equilíbrio na madeira e nas pedras da Casa da Colina, e o que entrasse ali, entrava sozinho.” É do livro “A assombração da Casa da Colina”. No final, Alfredo também menciona uma fala adaptada do filme “Conta comigo” que é uma adaptação do conto “O corpo” de Stephen King.

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