Na estrada

Aya estava em um trecho mal iluminado da BR a primeira vez que viu o cavalo. Ele passou pelo carro em trote rápido e a crina negra chegou a encostar no retrovisor antes do alazão sumir, unindo escuridão de seu pelo com o breu dos últimos quilômetros. “Ela deixou ele fugir?” A jovem riu: deixara a fazenda há mais de dez anos. A bateria do celular morreu antes da 101. Ou foi depois? De qualquer modo, o que importava era ir para longe. Era estranho pensar na fazenda logo naquele momento. Não pensava na sua casa de infância desde o incidente. Era impossível separar as árvores frutíferas e o pelego na rede da varanda dos gritos e do sangue escorrendo pela sala até pintar o seu All Star branco.

A escuridão tomou conta da estrada. A luz pálida da lua se misturava com o amarelo dos faróis. Dessa vez, ouviu o galope muito antes de ver o animal. Abriu a janela em tempo de sentir o cheiro de ração e esterco e ver o cavalo passando. Sentiu o suor derreter a camada seca de sangue nas mãos quando viu o cansaço do animal e o focinho tomado por pêlos brancos. “Era outro cavalo”, repetiu para si. Não era. Reconheceu o trote, os batimentos dela o acompanhavam, sentia-os na sua cabeça. Assim como sentia a fazenda. Ela escapou, mas a fazenda ainda estava lá, estava no sangue dela, no sangue que grudou no tênis e nunca mais saiu e no sangue que cobria suas mãos suadas.

Estava na fazenda antes de entrar no carro. A namorada com o dedo na sua cara, algo sobre ser uma covarde e nunca fazer o que quer. Não era para Flávia estar na fazenda. Não ia à fazenda há mais de dez anos.

A luz cálida dos faróis apresentou primeiro as moscas e depois o corpo no meio da estrada. Aya desceu do carro em direção ao infinito. Encontrou o cavalo morto, moscas e larvas festejando a carnificina do peito aberto do animal. Paz. Sentiu um líquido viscoso e quente escorrer pela barriga dela antes de ver o coração do animal insistindo em bater mesmo fora do dono. Enfiou a mão no próprio peito aberto e retirou o mesmo órgão que batia em sintonia.



Leave a comment