— Não há nada que a gente possa fazer?
— Não sei. Segundo eles, não somos mais compatíveis.
A decisão judicial reinava semi aberta no centro da mesa, acompanhada de suas outras quatro irmãs mais novas, já amassadas e borradas por lágrimas. A carrasca das cartas passava a língua pela fenda em seu lábio superior enquanto se movimentava de um lado ao outro da sala onde vivera com o marido nos últimos anos.
— Podemos falar com a advogada e tentar uma última apelação.
— É uma possibilidade.
As palavras saíram arrastadas, quase forçadas lábio leporino afora. Rafael desenhava imagens desconexas no vapor da janela, encarando a paisagem sépia de São Paulo por entre os dedos.
— O que foi?
— Por que a gente não se ama mais, Ju?
— A gente se ama.
— Eles dizem que não e Eles estão sempre certos. Eles nos escolheram um para o outro.
Julia tinha vinte e quatro anos quando recebeu a carta. Todas as suas irmãs e amigas já haviam sido encaminhadas para seus respectivos cônjuges antes dos vinte, mas ela seguia só. Perdera conta a quantos homens fora enviada, sempre recebendo um envelope com um grande “INCOMPATÍVEL” estampado em seu interior. Chorara várias vezes no colo da mãe, perguntando-se por que era tão difícil encontrarem seu par. “Eles querem ter certeza que você será feliz”, dizia a mãe. Isso, na frente dela. Quando a mãe e o pai estavam a sós, ouvia o medo entranhado na voz questionando se a filha seria levada para os campos de trabalho forçado por ser impareável.
Aos vinte quatro fora encaminhada para Rafael, um homem da mesma idade, com o mesmo lábio leporino e o mesmo amor por INXS. Até onde se lembra, foi amor à primeira vista.
Dez anos depois, simplesmente diziam que não eram mais compatíveis.
— Não importa. Estão errados agora.
— Quando os Almeida foram divorciados, Eles mandaram um relatório dos motivos. Deve estar na última carta.
— Está. Mas não importa.
Júlia mal havia acabado a frase e Rafael já estava com o papel em mãos, resgatado de ter o mesmo destino dos demais.
— “Falta de afeto nas redes sociais”. “Foram vistos separados nos eventos listados no anexo B”. “Ausência de prole”. “Incompatibilidade de aparência”, “Incompatibilidade de peso”, “Incompatibilidade corporal”. “Infide…”
— Chega! Não importa o que tá escrito, tá errado! A gente pode fugir pra a Argentina, lá as leis conjugais são mais brandas.
— Mas seria errado, Ju. Esse é o nosso lar. Falei com o Pablo, ele trabalha pra Eles. Ele me disse que um dos critérios de bastante peso é compatibilidade física.
— Foda-se, Rafael! Você quer fazer uma dieta para perder quinze quilos em uma semana?
— Não, bobinha. Calma, eu vou resolver tudo.
Rafael tomou a mão esquerda da esposa e a beijou, assim como fizera no dia do casamento. Resoluto, levantou-se e foi em direção a cozinha, trancando a porta atrás de si.
O primeiro barulho que chegou aos ouvidos de Julia foi o chiado áspero de metais se encontrando, seguido por respirações profundas e silêncio. A primeira batida veio seguida de um grito abafado, as próximas se misturaram aos murros de Júlia na porta de madeira, apelos femininos e mais grunhidos de dor, preenchendo o ambiente familiar com uma cacofonia macabra.
Enfim, silêncio, ou o mais próximo disso comparado aos minutos anteriores. As cordas vocais de Julia, já exaustas e empapadas, murmuravam o nome do marido enquanto os punhos machucados emulavam batidas. Lá dentro, gavetas eram abertas e passos vinham em direção à saída.
Rafael encontrou Júlia prostrada em frente a porta. Olhos mareados, maquiagem escorrendo pelo rosto até chegar a fenda do lábio.
Júlia viu Rafael parado na porta da cozinha, onde deveria haver a mão esquerda, apenas um cotoco enrolado em panos de prato sobreviventes do enxoval, agora tingidos de vermelho. Na mão restante, trazia um cutelo que ele gentilmente entregou a esposa:
— Ju, você me ama?
Nota da Theo: Esse conto foi altamente baseado no filme "O Lagosta".
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