Pandora observou o restante do peito da melhor amiga subir e descer cada vez mais devagar. Ervas e lama cobriam os cortes de espada em uma tentativa fútil de cura. As orelhas felinas de Ariadne, ainda expressivas, encolhiam trêmulas. A menina deitou-se na cama de sangue e grama apoiando a cabeça do lince em seu ombro como fazia todas as noites. Recebeu em troca um ronronar agradecido e uma fraca cabeceadinha no queixo.
“A Dríade da árvore podre”. Todas da sua espécie são conectadas a uma árvore, a maioria com carvalhos, cedros ou coníferas exuberantes. Menos Pandora. Sua árvore, um salgueiro desbotado, de folhas escassas. O tronco frágil, tomado por fungos. Também não tinha mãe, morrera no parto. Criada pelos Elathari, o maior clã da Floresta das Castanhas, por uma família aqui e outra ali, sempre soube ser persona non grata. Os adultos conseguiam fingir que não a achavam amaldiçoada, esforço ignorado pelas crianças.
Ari notou a movimentação antes da amiga, mas apenas conseguiu contorcer as patas e bufar. Pandora examinou os arredores até seus olhos pousarem no homem atirado no chão com uma mordida de lince da lateral do torso e o rosto faltando um olho arrancado a garradas. Assim como a sua algoz, ele também respirava com dificuldade, porém o peito dele continuou se movimentando enquanto o de Ari parou.
Começara com uma brincadeira de mau gosto. As meninas mais velhas roubaram sua coleção de musgos e se teleportaram pelas árvores — outra magia não dominada por Pandora. Quando se cansaram, largaram a caixa fora da área protegida pelos Elathari, área dominada pelas bestas da cidade. Estava quase a salvo quando um esfolador apareceu. Armaduras de pele de dríade eram a última moda entre os arqueiros do reinado.
Deu um último abraço na amiga e ergueu-se, pegando a espada ainda banhada no sangue de Ari. Era pesada e não prática, mas serviria. Ela se aproximou do esfolador, parte do dorso faltando e ossos da face à mostra. Sempre soube que não deveria matar, exceto se não tivesse escolha. Decidiu não ter. Sentiu a lâmina perfurar a pele e trancar na cartilagem da traqueia, um pouco mais de força e ouviu o engasgar de sangue com saliva até a ponta da espada tocar o solo. Silêncio.
Usou sua capa como base para arrastar o corpo de Ari, mesmo assim seus braços fracos não eram de grande ajuda. Lágrimas abriram caminho por sangue e suor, não conseguiria ao menos levar o corpo da amiga para casa.
— Precisa de ajuda, criança?
A voz sibilada veio de trás a sobressaltando. Sua dona, um chacal manco, cheio de pústulas na pele.
— Tenho que levar Ari pra casa.
— Ah minha pobre criança, mas a sua amiga está morta.
Ouvir aquelas palavras em voz alta foi tal qual receber o golpe que matou Ari. O chacal tinha razão, não estava carregando Ari, apenas um corpo morto. Ela largou a capa e cravou as unhas nas palmas das mãos, em busca de outra espécie de dor.
— Por que você tem que dizer isso?
— Porque é o primeiro passo para trazê-la de volta.
— Você pode fazer isso, pode trazer ela de volta pra mim?
— Eu? Não. Sou só um chacal pulguento agora. Nem polegar opositor tenho… Mas posso te ensinar como fazer.
— Eu nem consegui curar a Ari quando ela precisou.
— Ah, mas você não tinha a minha ajuda, criança. Conseguiremos reviver a sua amiga, prometo. Tenho apenas um pedido em troca.
Um demônio. Pandora ouvira histórias sobre eles: se apresentam na forma de criaturas frágeis e oferecem favores em troca da sua alma. A jovem druida não se importava em dar sua alma para salvar Ari, o problema era que demônios raramente realizam seu desejo da forma esperada.
— Vai querer a minha alma?
— Não sou um demônio, criança. Na verdade, sou uma dríade como você. Fui amaldiçoada e presa nesta forma decrépita. A única forma de quebrar a maldição é voltando para minha árvore, porém ela está em domínio Elathari e…
— E só convidados podem entrar.
Os olhos amarelo-queimado do animal lembravam folhas doentes e traíam apenas súplica. Pandora revisitaria esse momento diversas vezes no futuro sem saber se fora a semelhança dos olhos do animal com os seus ou o aspecto canino que a convenceram.
Ela seguiu a dríade-chacal até a beira de um lago, de onde o animal desenterrou um grimório surrado. Um dos olhos de Ari já havia sido devorado por larvas quando Pandora conseguiu executar a magia de preservação. Sua professora, que descobriu chamar-se Junípera, a instruiu com maestria mesmo na sua situação canina durante meses, lhe ensinando muito além do feitiço de ressurreição. Com ela, Pandora descobriu que sua fraqueza em magias de suporte era compensada em magias de ataque e maldições. O solstício de inverno chegou e estava tudo pronto, exceto um detalhe.
— É realmente necessário?
Questionou a menina enquanto observava uma das garotas que pegara sua coleção de folhas, desencadeando toda aquela série de eventos.
— Não. Porém, você trará de volta apenas o corpo de Ari. Para recuperar a alma dela é preciso de mais, uma troca equivalente.
Pandora murmurou um dos seus novos feitiços e fez surgir vinhas cheias de espinhos, prendendo a garota. Um dos galhos tapou a boca da vítima, cessando os gritos insuportáveis enquanto os outros a arrastaram para o local do ritual.
Queria poder dizer que se sentiu mal ou culpada quando viu a urina descendo pelas pernas da companheira de clã, os membros tremendo e a boca emitindo súplicas sem sentido, mas não sentiu nada, sequer o prazer da vingança. A morte dela era uma mera tecnicidade, nada mais. Cortou a garganta do sacrifício em um corte limpo, fazendo jorrar o sangue. Coletou o necessário e deixou o restante escorrer.
— O Risen Lird, dre Wa, dre Ludr, aln dre Dudr…
Uma nuvem negra tomou conta daquela parte da floresta, os animais corriam na direção oposta e a vegetação deixava claro o seu descontentamento derrubando galhos e os soprando na direção de Pandora. O chacal observava sua cria com orgulho e notou quando o poder do feitiço fez seus cabelos de folhas cor esmeralda desbotarem até assumirem um tom amarronzado de natureza morta.
— Tsalk drat eipal ma sepa shielwerdfir Renaed!
Um estrondo e um apagão. A força do feitiço foi demais para Pandora fazendo-a desmaiar.
Acordou dias depois com um peso sobre seu peito e um cheiro forte de mofo. Olhou para frente e viu a cabeça felina que conhecia tão bem. As orelhas atentas notaram o seu despertar e moveram-se prevendo um bocejo. Ari encarou a amiga, a cavidade de um dos olhos, tomada por cogumelos. O pelo estava desbotado e era possível ver as partes que os vermes conseguiram devorar. A parte isso, estava ali, sã e salva.
— Ela não saiu do seu lado um segundo. Entendo porque queria tanto trazê-la de volta.
— Obrigada. Não teria conseguido sem sua ajuda.
— Pode me agradecer me levando até a árvore no centro de sua aldeia.
— Pensei que aquela árvore não possuía uma dríade.
— Nem tudo o que os Elathari falam é verdade, criança.
Pandora tinha um mau pressentimento. Sabia que Junipera escondia algo, mas havia feito uma promessa.
Encontraram a aldeia exatamente como Pandora havia deixado há meses. Após o convite, viu Junipera avançar em direção a sua árvore sem olhar para trás. Eram apenas ela e Ari novamente.
— Pandora, onde você se meteu?
A pergunta veio com um puxão e a jovem foi forçada a encarar os olhos preocupados da matriarca da aldeia. Viu o olhar ir de preocupação a pavor quando ela pousou os olhos em Ari.
— Onde ela está? O que você fez, Pandora? O que você fez?
— Não ouse colocar a culpa nela, irmã.
A voz de Junípera saia imponente, o ódio estampado em cada sílaba. O chacal sarnento avançou, patas transformadas em pés descalços, o pelo ralo da cabeça, deu lugar a um volumoso cabelo de folhas negras. A pele de árvore se revelou coberta de musgos e cicatrizes. No céu, o sol deu lugar a sombras e nuvens de esporos desceram para envolver a mulher, completando a imagem da vingança.
Antes de a matriarca pronunciar um feitiço de proteção, vinhas espinhentas muito mais vis do que as de Pandora agarram-lhe os membros a erguendo do solo. Os guardiões tentaram acudir, mas foram recebidos com galhos em formato de estaca emergidos do solo. Era apenas o começo.
— Deixe os outros em paz, Junípera. Seu problema é comigo.
— Aí é que você se engana, irmã. Há muita retribuição a ser feita. Você me exilou — usou as vinhas para bater o corpo da mulher na árvore mais próxima. — Roubou minha filha de mim — outro golpe — para deixar tratarem ela como lixo!
A matriarca foi erguida no ar mais uma vez, as plantas puxando seus membros em direções opostas. Junípera foi atacada a flechadas e magias, mas isso não a enfraqueceu. Tentativas de ataque corpo a corpo foram feitas, mas a nuvem de esporos à sua volta corroía tudo o que se aproximava.
Pandora não lembra quando começou a gritar. Talvez tenha sido quando as vinhas esticaram o corpo da mulher até arrancar-lhe os membros, ou quando Junípera reanimou os cadáveres dos guardiões, comandando-os para o massacre.
Ari ajudou a amiga a sair do estado de pânico e ambas correram. Fugiram segundos antes da necromante erguer paredes rochosas ao redor da aldeia, condenando todos a morte planejada há anos. Pandora nunca olhou para trás, nunca viu o fim dos Elathari. Viu o suficiente para tudo permanecer em seus sonhos pelos próximos cinco anos. Também não parou de fugir, principalmente após descobrir que o Grimório de Junípera havia ficado em sua bolsa.
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