Adefagia

— Ma, estou com medo.

A confissão da criança era desnecessária. A mãozinha parecia uma pedra de gelo desde a saída da aldeia. Uma bola de pele fina, empapada e gelada, apertava a mão da irmã gêmea que se limitou a segurá-lo mais forte. Continuou:

— Por que eles nos mandaram embora? A gente fez alguma coisa errada?

— A comida e a lenha tavam acabando. Eles precisam expulsar algumas pessoas pra sobreviver. 

— Mas e por que a gente?

“Queriam se livrar do aleijado e a irmã responsável decidiu ir junto”. Maria olhou para o irmão: a confusão no rostinho desnutrido cor de massa podre sem se importar com o braço ausente e o nariz desprovido de cartilagem. Em dias bons, desejava que as deformidades tivessem sido distribuídas igualmente entre os dois. Em dias ruins, gostaria que João tivesse morrido no parto ao invés da mãe.

— Não sei, querido. Sua respiração está arrastada. Quer subir na garupa como a gente faz pra brincar de justa?

Ela não precisou repetir, mal terminou a frase e João já estava nas suas costas. Maria sentiu saudade da época onde a mais séria das preocupações podia ser facilmente superada pela sugestão de diversão. Seguiu a busca por abrigo com o pacotinho nas costas, fazendo firulas de tempos em tempos para distrair da tragédia. 

— Ma, que fumaça é essa?

A jovem não percebeu a névoa, julgava ser apenas a visão embaçada pela fome e carga extra. Colocou o irmão no solo e lembrou das histórias dos caçadores da aldeia.

— Acho que a gente tá na zona amaldiçoada, Jo. Melhor a gente se apressar. Pode me dar um pouco do teu pão?

A mão foi para trás das costas e os olhos encararam o chão em uma atitude bem conhecida por Maria.

— João?

— Eu… eu não tenho mais o pão, Ma.

— Como não tem mais o pão? Tu comeu?

— Não eu… É que eu tava fazendo um caminho de farelo caso a gente quisesse voltar pra casa.

O estômago vazio há dois dias não foi capaz de manter a pressão regular e Maria se viu apoiada em uma árvore seca enquanto soltava as palavras entre puxadas de ar.

— Tu jogou a comida fora?

— Não foi fora. Se a gente quiser voltar pra casa e pedir pra eles nos aceitarem de volta, a gente vai saber o caminho. Vai que eles se arrependeram.

— Tu é digno de pena, sabia? Aquela gente te quer morto desde o dia que tu nasceu! Doze anos na cara e se comportando feito um bebê! Nem pra guardar a merda de um pão tu serve!

As palavras saíram aos berros e emboladas. João não ficou para ouvir a última frase, correu floresta adentro deixando apenas o engasgar do choro como guia. Maria seguiu, cabeça zunindo e sem ter certeza se sentia muito ou não. Apenas precisava encontrá-lo. Arranhou corpo e rosto nos galhos enquanto seguia em marcha rápida e forçada, tirando forças da culpa. Só parou ao avistar um casebre abandonado cuja porta foi fechada pouco antes da sua chegada.

— Olá! Tem alguém em casa? João, tu tá aí? Desculpa. Eu não devia ter dito aquilo.

A porta se abriu na terceira batida. Dentro, a névoa se transformava no calor de lareira e em cheiro de comida pronta. Bolos e pães enfeitavam a mesa posta, jarros de suco davam o toque final. Na cozinha, uma velha encurvada de cabelos outrora dourados terminava o jantar

— Querida! Que susto você me deu.

Disse a mulher entre sorrisos enquanto secava as mãos em um avental xadrez.

— Desculpa. Bati na porta e ela abriu. To procurando o meu irmão.

— Não tem problema, doçura. Não vi mais ninguém aqui. Venha comer alguma coisa, consigo contar seus ossos.

— Mas ele pode estar em perigo.

— Só um biscoitinho não vai fazer mal, meu bem. Você mal se aguenta em pé.

Maria hesitou. Estava acostumada a realizar sacrifícios pelos outros desde que se entendia por gente. Porém, a perspectiva de alimento enuviava seu senso de responsabilidade. Devorou toda comida à sua frente, afastando o pensamento do irmão ao dizer que precisaria estar forte se quisesse encontrá-lo. A senhora apenas a olhava com candura e trazia mais quitutes.

— Muito obrigada, estava morta de fome.

— Pode comer o quanto quiser.

— Obrigada, mas não posso ficar. Tenho que encontrar o meu irmão.

— Tão novinha e tão responsável. Veja bem menina, daqui a pouco o meu filho chega e ele pode te ajudar a procurar. Não há motivo para fazer isso sozinha. Nem é sua função, não é mesmo? Vocês têm a mesma idade, ele poderia muito bem estar procurando por você.

Maria absorveu as palavras agridoces desfrutando cada parte, cada nuance. Sua degustação foi interrompida por um rosnado rouco, vindo da porta.

Um lobo sarnento e manco a encarava pela entrada. Rosnava e latia com a baba a escorrer por entre os dentes. A garota ficou imóvel, talvez se não demonstrasse ameaça ele iria embora, porém isso o irritou ainda mais. O canino foi em sua direção dando patadas e tentando agarrá-la, levando-a ao chão. Maria segurou as finas patas do animal, jogando-o para o lado — não era tão forte quanto esperava, até os lobos tinham fome nesse maldito lugar. Chutou a cabeça e ouviu o ganido lupino. Apoiou o joelho em seu peito, envolveu as mãos no pescoço e apertou com a mesma força que torcia roupa.

— Pronto, pronto menina. Já está morto. Você foi muito corajosa, sabia? Proteger uma velha senhora de tal besta. Venha cá, pegue uma broa e sente-se comigo. Vou lhe contar uma história.

Obedeceu. A broa soltando farelos e grudando em suas mãos devido à tremedeira e ao suor. A velha sentou-se na cadeira de balanço e a garota se acomodou em uma almofada aos pés dela. Sentiu as mãos enrugadas acariciando seus cabelos em um carinho até então desconhecido. As pernas da idosa a abrigaram com cuidado, a voz doce ecoando em seus ouvidos: 

— Era uma vez…

Maria morreu sem sentir os vermes caminhando pelo rosto, explorando cara orifício enquanto a boca deliciava-se com carne podre de origem incerta e o corpo do irmão jazia à sua frente, rodeado por esqueletos de outros sonhadores.

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