Inexorável

… Joaquim despertou com o pescoço em chagas e os pulmões desesperados por ar. Estava prostrado em frente a capela da Santa Casa de Misericórdia, o Pai-Nosso ainda ecoava em sua cabeça. Dentro, um sacerdote murmurava uma missa qualquer, de costas para ele. Sua reza lamurienta infestava a noite e causava tremores em Joaquim. Não por ser sombria, mas por trazer lembranças.

Apressou-se em sair daquele lugar de ecos, andou a passos firmes pelo caminho de chão batido em frente ao hospital, sentindo o cheiro de terra seca que lhe era tão familiar. Acabou chegando na Rua da Praia, onde várias figuras com rostos camuflados pela noite formavam um corredor, como se aguardassem um desfile, um espetáculo prestes a começar. Joaquim desejou dar meia volta, ir para casa, mas seu corpo tinha outros planos e, no fundo, ele sabia onde precisava chegar. Usando o pavor como oxigênio, passou correndo pelo público inerte, sem coragem de encará-los até chegar ao Largo, onde uma nova plateia o esperava.

Estava de joelhos em frente a Capela da Santa Casa com o rosto branco em chamas e o pescoço latejando. No lugar do sacerdote, a figura de Cristo crucificado o encarava, sem trazer alento. Julgou não ter passado de um sonho, limpou as vestes de linho, ajeitou o bigode e começou a andar, acreditando ser sem rumo. Era uma noite bela: o minuano soprava e embalava o Guaíba, produzindo uma canção melancólica. Contudo, não havia ninguém para ouvi-la além de Joaquim. Deveria ser demasiado tarde para não ter viva alma na rua. Ele puxou o relógio de bolso, mas este estava quebrado, marcando três horas. A visão do objeto lhe causou desconforto, não pela frustração, mas por já saber que estaria avariado. Deixou de lado as belezas da cidade e pôs-se a andar mais rápido.

Desceu a ladeira íngreme da Graça e desembocou no calçamento recém-feito da Rua da Praia. Sentiu a dor no pescoço intensificar e o ar faltar-lhe nos pulmões: o mesmo cortejo sombrio o esperava, agora de cabeças erguidas. Podia ver os rostos voltados a ele e em especial o que lhes faltava: no lugar dos olhos apenas abismos escuros sem emoção, aguardando um espetáculo que nunca poderiam contemplar. O desejo de fuga inundou Joaquim, queria retornar às regalias de seu casarão, sua dedicada esposa e seus escravos. Precisou de toda sua força de vontade para cessar a marcha insana, as pernas tremiam e ele sentia o suor escorrendo pela face. Era Joaquim Machado Leão, um dos homens mais temidos do Rio Grande, não se submeteria a isso… foi o que pensou até sentir o peso de um olhar a suas costas. Conseguiu sentir percorrer-lhe a espinha e arrepiar-lhe a nuca. Virou a cabeça lentamente, sem saber se por uma curiosidade mórbida ou por ser inevitável.

Joaquim Machado Leão encontrou olhos delatores dos quais jamais esqueceria. Olhos grandes e escuros de um jovem um pouco mais velho que uma criança, olhos interrompidos. O negro, dono do olhar, o encarava sorrindo. Em volta do pescoço, trazia uma forca rebentada e cobrindo-lhe as costas, um manto longo. A aparição caminhou na direção dele e com um simples gesto, mandou-o seguir em direção ao Largo. 

Acordou genuflexo em frente a Capela, já sem forças. O pescoço transcendeu a dor e já não tinha certeza se respirava. Mal voltara a si e o impulso doentio já começou a dominar-lhe a mente: precisava chegar ao Largo. Preparava-se para seguir caminho, quando uma lamúria vinda da capela chamou sua atenção: podia observar as costas do sacerdote com vestes simples conduzindo a missa que lhe causava tremores, mas agora entendia o motivo: conhecia aquelas palavras do seu trabalho como meirinho, era o rito de extrema unção. O sacerdote virou em sua direção, a mão erguida a buscar um condenado para ungir. Joaquim sucumbiu ao chão mais uma vez, as mãos trêmulas empurrando o solo areado buscando fazer o papel dos pés e levá-lo para longe daquela visão familiar: no lugar onde deveriam estar os gentis olhos do eclesiástico encontravam-se duas fossas negras tão profundas quanto o mais mortal dos abismos. O mais terrível não era o fato da criatura o encarar, mas saber que ele só faria isso.

Logo em seguida vieram soldados, também com olhos roubados, lhe ergueram do chão, arrancaram as vestes de Joaquim e as substituíram por trapos cheirando a urina e sujos com uma mistura de terra e vomito. Terminaram prendendo-lhe as mãos às costas com grilhões à beira da ferrugem. O condenado tentou protestar, disse ser oficial da justiça, representante do rei, dono de terras, mas os soldados pareciam ter perdido os ouvidos assim como os olhos.

Foi atirado à calçada no início da Rua da Praia e obrigado a andar por sua ânsia desvairada e pelos soldados que marchavam atrás de si. Ladeando a rua, a conhecida multidão, agora se alegrava com o espetáculo enfim iniciado. Eles gritavam impropérios e o acompanhavam na sua jornada fatídica. Cuscos sarnentos latiam, alguns tentavam morder-lhe os calcanhares e o som se misturava aos gritos do povo e as rezas agorentas do sacerdote.

O Condenado já podia ouvir o badalar da Igreja das Dores anunciando a proximidade ao seu destino. No Largo da Forca, eles já o esperavam. Ao redor do instrumento mortal que dava nome ao lugar estavam sete negros, todos com olhos grandes, acusadores e com forcas no pescoço. Apenas um deles trazia nas costas um manto que reconheceu enfim como a bandeira da misericórdia. Ao fundo, a Igreja em eterna construção observava tudo, dando sua bênção pela primeira vez.

O carrasco o levou até a forca, a multidão o olhava, mas apenas os escravizados o viam. Não havia ninguém para ler-lhe a sentença, pois era o próprio meirinho quem estava no cadafalso. O padre uniu-se ao sacerdote para finalizar a atração.

“Pai nosso que estais nos Céus, santificado seja o vosso Nome…”

Colocaram-lhe o capuz, tinha furos de uso e cheirava a lagrimas e saliva. Ele nunca entendeu o motivo do capuz, imaginava que o rosto transfigurado pela morte deveria fazer parte do espetáculo.

“… venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no Céu.”

O executor verificou a corda e o nó antes de pousá-la no pescoço do condenado. Ele brincava com o banquinho que logo empurraria, achava graça.

“O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido…”

A frase fez o ódio aflorar-lhe. Ele esbravejou ser digno de perdão, ter apenas seguido a lei e se cometera injustiça, fora por ignorância. Era um homem de boa família, um cidadão de bem, não merecia morrer. Recebeu como resposta o sorriso das vítimas.

“… e não nos deixeis cair em tentação…” 

Aceitando o inexorável, pediu perdão ao senhor e suplicou por um fim rápido. Esperava sentir a paz da confissão, mas ao invés de alívio, sentiu pavor. Não pela morte iminente, mas pelo entendimento.

“…, mas livrai-nos do Mal.”

… Joaquim despertou com o pescoço em chagas e os pulmões desesperados por ar. Estava prostrado em frente a capela da Santa Casa de Misericórdia, o Pai-Nosso ainda ecoava em sua cabeça…

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