Os olhos de Hannah recusavam-se a piscar e seus batimentos ecoavam dentro de si, abafando a melhor versão de Time is on my side na vitrola. As mãos gélidas seguravam o celular que exibia a prévia da foto impossível. Havia perdido as contas de quanto tempo estava presa naquela casa. Desde o início da pandemia? Desde a festa? Não, foi quando a COVID levou seus pais e seu irmão jurou jamais perdoá-la. Então, permaneceu lá, sozinha, protegida por alarmes e esquecimento. Ainda assim, estampado na tela, via o chão do quarto onde pratos e talheres de refeições passadas disputavam lugar com roupas sujas empurradas da cama. Nela, em meio a discos de rock e algumas meias esquecidas, cachos negros protegiam o rosto inchado, deixando visível apenas parte do nariz e a boca entre aberta; o tronco virado de bruços vestindo uma camiseta velha dos Beatles, a favorita de seu pai, enquanto as pernas torciam-se para o lado esquerdo em uma posição nada confortável. “Dorme parecendo um bichinho atropelado”, sua mãe costumava brincar. O momento capturado na escuridão, de um ângulo elevado em frente ao leito.
Levantou e olhou ao redor por instinto. Tudo estava como deveria, o cenário igual ao registrado e nenhum monstro fotógrafo embaixo da cama. Contudo, uma fraca luminosidade invadia o quarto pela porta entreaberta, denunciando alguma lâmpada acesa na casa. Ao olhar através da abertura, deparou-se com a cozinha iluminada, no fundo do corredor. Cheiro forte de massa doce e leite preenchia suas narinas, cheiro de tempos mais felizes. Hannah seguiu em direção à luz, os pés descalços indo ao encontro do piso frio, absorta demais em memórias para notar as manchas de sangue pelo corredor. A música dos Rolling Stones parecia iniciar pela terceira vez e completava o cenário nostálgico.
Esperava a mesa posta protegida pela clássica toalha bege com manchas de café e montanhas desenhadas de hidrocor. A obra de arte rendera uma bela bronca e algumas horas de castigo. Acima das montanhas o irmão desenhara um sol, só para lhe fazer companhia. A mãe servia sua refeição favorita: panquecas com mel e Nescau, enquanto seu irmão argumentava em prol da superioridade do Toddy e o pai dizia que ambos tinham açúcar suficiente para deixá-los acordados até o sol nascer.
Encontrou apenas a cozinha fria precisando de limpeza. Na mesa forrada apenas por marcas de copos, sobras de panquecas disformes e mal cozidas, servidas às pressas em pratos sujos. O achocolatado fora misturado em um pote e estava quase no fim.
O som de passos no sótão terminou de expulsar as lembranças. Seus pais e seu irmão não estavam mais lá, graças a ela. Ainda assim, alguém caminhava no andar de cima. Moveu-se em direção ao faqueiro em busca de algo para se defender, quando notou a ausência de uma das facas. Pensou em fugir, mas não havia nada para ela lá fora. Optou por remover uma das barras de ferro restantes da churrasqueira e subir em direção ao sótão.
As luzes não funcionavam devido ao curto-circuito em algum lugar no passado, uma das coisas que seu pai ia arrumar, mas não teve tempo. A arma improvisada tremia e escorregava no suor de suas mãos. Os olhos, desacostumados à escuridão, lutavam para enxergar o meio do cômodo onde um amontoado de roupas e cabelos jazia. Tentava distinguir detalhes quando em meio a música, o som de passos atrás de si se destacou.
Hannah foi ao chão, atracada com seu agressor. A faca subia e descia em movimentos desastrados e sem força. Debateu-se até as mãos encontrarem um rosto contorcido e úmido, não demorou muito para seus dedos atingirem os olhos, forçando seu atacante a afastar-se o suficiente para ela recuperar sua arma e fazer como os jogadores de beisebol que seu pai adorava ver. O primeiro golpe já teria sido suficiente, mas Hannah continuou batendo. Bateu até o vermelho pintar-lhe a face, até ouvir o crânio rachar como uma casca de noz, até o sangue misturar ossos com pedaços de cérebro e dentes. Até seus braços não conseguirem mais erguer a barra de ferro, deixando-a escorregar pelas mãos e rolar pelo assoalho até encontrar outra idêntica.O entendimento veio quando reconheceu as camisetas em meio aos restos humanos. Hannah sentiu as lágrimas abrirem caminho pelo sangue e terminarem em um sorriso largo responsável pela risada abafada. Limpou as mãos no rosto de John Lennon antes de dirigir-se ao quarto, guiada pelo solo de guitarra e pensando se morreria no primeiro golpe.
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