[Alerta de gatilho: Suicídio]
Otávio acordou no meio da madrugada, nos seus ouvidos ecoava um ruído contínuo vindo da sala. Lembrava gotas de chuva encontrando uma calha de alumínio em uma tempestade de verão. Virou-se na cama para olhar a janela e viu apenas a parede mofada do prédio ao lado sendo banhada por uma noite fria e seca. A chuva não era a causa do barulho na sala.
O ritmo tornou-se familiar, reconheceu o som que há tempos não ouvia e há muito ansiava: teclas de computador sendo pressionadas com certeza e veemência. Pensou estar dormindo ainda, talvez preso em um sonho bom, onde era ele quem produzia aquele barulho agradável, como nos velhos tempos. Já fora um escritor de sucesso, publicara três romances e ganhara prêmios. Um curto período de glória e fortuna, esquecidos em um passado distante demais para a rapidez do século XXI.
Onze meses e cinco dias. Por onze meses e cinco dias Otávio sentou em frente a tela do notebook, a luz alva refletindo na lente barata dos óculos, o dinheiro economizado com o antirreflexo, gasto em Dipirona. O fundo branco do Word, intacto, vazio. Um mar pálido de textos que poderiam ter sido. Chegou a investir uma nota naquelas assistentes virtuais para tocar sons ambiente aleatórios e dizer palavras de incentivo, conseguiu apenas não se sentir tão só.
Naquele momento, deitado em sua cama, confrontou o teto tomado pela infiltração, e quis acreditar ao menos ter sido presenteado com um universo onírico afortunado, mas não. Seus olhos acostumaram a escuridão, sua consciência, cada vez mais desperta, recuperava as mazelas da vida. Sonhos bons não eram a causa do barulho na sala.
Olhou a lacuna gélida ao seu lado na cama. Quis poder culpar um parceiro criativo, daqueles que têm uma ideia genial no meio da noite e parte para executá-la. Não. Na sua vida, apenas rapazes aleatórios por quem se apaixonava, mas para eles era apenas um objeto. Nada de programas divertidos, carinho ou palavras bonitas. Nunca foi o que era apresentado à família ou aos amigos, o exibido em redes sociais, o consolado em dias difíceis, o que tinha apelidos afetuosos. Somente uma transa certa em um dia entediante ou de baixa autoestima. Desejou ter renegado tais esmolas de afeto, assim como falava para a sua terapeuta toda semana. Não, suas migalhas não eram a causa do barulho na sala.
O som intensificou, lembrava cartelas de medicamentos vazias sendo pressionadas com violência. Talvez esquecera de tomar algum remédio? Não, pelo menos isso ele fazia bem. Quando fora diagnosticado com depressão, desejara acreditar que aquilo o tornaria um escritor melhor. Os grandes eram assim, não? Poe, Hemingway, Woolf. Almas deprimidas e geniais, fizeram da depressão, arte. Quando não conseguira levantar da cama e ferira a si mesmo para sentir-se vivo, descobrira serem incríveis apesar da doença e não por causa dela. Foi de um lado a outro do quarto, talvez seus passos abafassem o barulho infame. Porém, ele permaneceu lá. Incólume, retumbando nas entranhas de Otávio. Falta de medicação não era a causa do barulho na sala.
Se sua mãe estivesse ali, estaria furiosa com todo esse barulho. Ela adoraria vê-lo naquele momento, transformado em tudo o que sempre quis e lutou para ele se tornar. Quem sabe ela voltou do inferno e digitava na sala visando atormentá-lo uma última vez? Desde a infância repetia o quanto Otávio arruinara a sua vida. Uma carreira promissora jogada no lixo por um viadinho que só sabia escrever tolices, igual ao pai. Um inútil e ingrato. Ingrato. A primeira palavra pesquisada por ele no dicionário. Pegara gosto por palavras difíceis depois disso, ponto para ela. Quando morreu, Otávio foi ao enterro somente para cuspir em seu túmulo. Ela jamais seria capaz de tal sutileza. Ele pressionou os ouvidos com as mãos e bateu a cabeça na parede úmida, mas ainda estava lá, insistente, inexorável. Sua mãe morta não era a causa do barulho na sala.
O teclado continuava batendo. Foi até o armário e pegou uma caixa empoeirada, escondida na última prateleira. Dentro, uma relíquia de quando escreveu o “O assassinato do vigia”, seu romance de maior sucesso. Era antiga, mas devia funcionar. O teclado continuava batendo. Qual seria a sensação? Se perguntou se isso chegou a passar pela cabeça de Hemingway, a única coisa que teriam em comum. O teclado continuava batendo. Riu ao se dar conta que não seria nem ao menos um choque — era o professor excêntrico da faculdade, talvez até houvesse um bolão. No máximo seus alunos ficariam impressionados, mais pelo acontecimento do que pela falta. O teclado continuava batendo. Pensou em deixar uma carta, mas para quem? Ao amante que não retornava suas mensagens? A amiga com quem nunca conseguia sair? Não, manteria essa última dignidade. O teclado continuava batendo. O riso tornou-se mais agudo e as lágrimas o deixaram embargado. Contemplou uma última vez a sua vida de quases e o som executor de sua sentença.
Um estampido seco ecoou noite adentro e as paredes úmidas do pequeno apartamento no centro da cidade, foram decoradas por mágoa e sangue. O som de digitação, finalmente interrompido, deu lugar a uma voz eletrônica feminina:
“Alerta de tiro. Rotina: som ambiente digitação, pausada. Iniciando ligação para: emergência. Caso queira interromper esta ação, basta dizer…”
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