Ricardinho estancou o sangramento da sua parceira com as ataduras de seu disfarce. Infiltrar-se na casa do ricaço fingindo ser uma múmia do Antigo Império não havia sido a pior ideia do assalto no fim das contas. Este prêmio estava entre ter acreditado na exclusividade da informação de Betinho, irmão de Rita, e ter fixado as bandagens com o esparadrapo mais potente da Panvel.
— Que tipo de filho da puta traz um cutelo pra um roubo de arte? Esse corno quase cortou meu braço fora.
Ricardinho queria dizer que, para um assalto antes do anoitecer, um cutelo era bem mais inteligente do que a calibre 22 na mochila e talvez a pergunta certa seria por que o irmão dela recomendou eles fizessem o esquema de dia para início de conversa. Porém, ele não havia sobrevivido tanto tempo sem saber que não deveria falar mal do irmão de uma Rita em três dias de abstinência. Limitou-se a retirar o resto dos pelos das pernas com as ataduras e seguir com a busca do objeto roubado.
— Fico me perguntando como ele conseguiu a informação sobre o quadro.
— É bom tu não tá insinuando que o meu irmão teve algo a ver com isso.
— Longe de mim.
A casa no Moinhos de Ventos estava silenciosa a não ser pelo ranger de dentes de Rita, tentando controlar a dor. Ricardinho procurou espelhos, pois desconfiava estar sem parte das sobrancelhas, mas não encontrou nenhum. Apenas móveis do século passado com detalhes em ouro feito a mão encobertos pela penumbra gerada pelas cortinas fechadas. Colunas gregas (ou seriam romanas?) serviam de suporte para esculturas bizarras de origem incerta e, nas paredes, pinturas no valor de muitos salários mínimos. Seria impressionante caso fosse um museu, como lar era apenas brega.
— Tem coisa aqui que deve valer entre dez mil e cinquenta mil dólares. Por que a gente só não pega uns bagulho e vai embora?
— Mas é bem capaz que eu vou deixar aquele ladrãozinho de merda ficar com o meu Rembrandt.
Ricardinho queria lembrar que, pela reputação de Betinho, era bem possível a pintura ser falsa, mas lembrou que Rita carregava as armas. A mulher tentou abrir a porta do cômodo onde acreditava estar escondido seu agressor e, ao não obter sucesso, bateu violentamente, tentando sussurrar ordens entredentes com pouco êxito. Nesse meio tempo, seu parceiro agachou e escolheu as ferramentas mais adequadas para abrir a fechadura.
— Abre essa porra, seu merda! Só usa cutelo quem não se garante no tiro!
— Para de gritar o sua puta!
— Vai a merda, devolve o meu quadro!
— Teu quadro meu cu, eu cheguei primeiro.
Mal Rita ouviu o clique da fechadura sendo destrancada, entrou chutando a porta, mas Ricardinho conseguiu impedir mais uma batida no rebote. No quarto, mais móveis de gosto duvidoso, nenhuma janela e iluminação meramente ilustrativa. O algoz estava parado embaixo de um lustre gótico segurando o Rembrandt em uma mão e o cutelo em outra, como quem faz um refém. Ao vislumbrar a cena, Rita fez o que qualquer pessoa sã faria e sacou a arma, obteve como resposta um ladrão escondido atrás de uma pintura ameaçando a mesma com um cutelo.
— Para de arreganho e me dá essa merda antes que eu te dê um tiro.
— Teu cu, se não for meu não vai ser de mais ninguém.
— Mas corno é foda mesmo.
A troca de gentilezas se estendeu por mais uns dez minutos. Ricardinho pegou um dos vinhos de duzentos anos, abriu um livro de cem e sentou-se em uma cadeira de quatrocentos.
Já estava quase terminando o primeiro capítulo quando o relógio badalou anunciando seis da tarde. A discussão foi brevemente interrompida primeiro pelo som imponente e segundo por um barulho de pedra sendo arrastada vindo de trás do sequestrador do Rembrandt. Ricardinho fechou seu livro e pôs-se ao lado da parceira, ela tentava olhar para o fundo escuro da sala sem perder o bandido de vista, ele, por sua vez, falhava em olhar para Rita e por cima do ombro simultaneamente.
Antes de qualquer um ver algo de fato, uma sombra agarrou o sequestrador e mordeu-lhe o pescoço, servindo-se de todo sangue disponível naquele corpo a não mais empunhar nem cutelo, nem Rembrandt. Ricardinho estendeu o vinho para Rita e perguntou:
— Tá liberado falar mal do teu irmão agora?
Gostou do meu trabalho e quer apoiar? Envie o seu e-mail no form abaixo para seguir o Blog, acompanhe o meu conteúdo nas redes sociais e, se puder, compartilhe com os amigos. Obrigada e até semana que vem!

Leave a comment