Queime a Bruxa

O cortejo de morte subiu a rua clamando por justiça. No centro da comoção, a terrível criatura responsável por incitar ódio e demandar cautela era uma jovem de cabelos negros e ossos saltando na pele cor da invasão britânica nas Américas. Homens e mulheres maltrapilhos disputavam lugares com jovens macilentos que aproveitavam a confusão para surrupiar-lhes uns centavos. Outros, mais privilegiados, simplesmente abriam as janelas e apoiavam os cotovelos no peitoril para assistir à execução da bruxa. 

Sarah nunca entendeu esse fascínio por assistir às aplicações da pena capital na praça. Não por achar mórbido, mas por sentir aquela realidade próxima demais. Estava certa, no fim, em outra vida talvez pudesse ter sido um daqueles intelectuais da Inglaterra. Olhou as pessoas gritando para queimá-la e apostou consigo mesma quem seria a próxima. Provavelmente a confeiteira. Não demoraria muito para descobrirem o efeito de seus chás para moças desesperadas. Mais cedo ou mais tarde, a ex escrava também aprenderia a lição que a mãe de Sarah tentou ensinar-lhe: “Nunca esqueça, você não é um deles”.

Foi atirada no chão da praça enquanto terminavam de montar a forca e a pira, usada mais tarde para queimar seu corpo, não deixando nada para sua mãe elevar nas árvores. Riu em um suspiro, pois suas costelas ainda sentiam o preço de recusar-se a confessar: aparentemente a assassina do herdeiro não merecia nem uma execução organizada. Sarah fitou sua audiência: centenas de miseráveis teriam um alívio momentâneo naquele espetáculo e eles: Lady Alden, a filha dela e o marido da filha. Entre eles, um assassino. Entre eles, o responsável por tirar vida do seu pequeno Tommy.

Tudo começou com uma febre seguida por delírios e convulsões. Quando Sarah percebeu que seus rituais e ervas não curariam o veneno ministrado ao menino, foi flagrada com o corpinho inerte e cercada pelos símbolos ensinados por sua mãe. A própria Lady Alden deu o alarde muito antes dos outros chegarem,  tentando tirar Tommy dos braços de Sarah a prantos e berros. Ela não deixou. Quem aquela mulher pensava ser? Que direito tinha ela de reivindicar aquela dor e aquele corpo? O corpo da criança que nunca amamentou? A dor pela criança que nunca colocou para dormir? Que não segurou quando nasceu nem quando morreu? O menino que via apenas como herdeiro, uma vitória depois de uma série de natimortos e filhas? Sarah aranhou, mordeu, chutou e protegeu o corpo do seu bebê enquanto pode. Até a chegada da filha de Lady Alden, até a chegada do marido dela, até a chegada de outros serviçais. Até sentir o crânio rachar. Até acordar vomitada na pedra com o cheiro de urina da prisão.

O carrasco a ergueu do chão, tal qual a criança que há três anos deixara de ser, e a pôs no cadafalso. Da elevação, Sarah podia observá-los como deveria. A primogênita de Lady Alden a encarava com gotas ralas caindo dos olhos. Ela sempre fora a favorita da mamãe, mimada e adorada. Ainda assim, não era homem e havia demorado demais para se casar. Quando finalmente conseguiu, sua mãe já havia parido um herdeiro. O marido há pouco adquirido enxugava as lágrimas inexistentes da esposa, cuja mão havia pedido buscando ser o responsável por cuidar de sua herança e devido aos seus belos olhos. Sendo acolhida pela vila inteira, estava Lady Alden, ela aproveitava os trajes de viúva e recusava olhar Sarah nos olhos.

O meirinho começou a ler as acusações e provas contra ela. Sarah havia utilizado o período na prisão para acostumar-se com a ideia da morte e, embora os longos interrogatórios a tivessem feito almejar a execução, as fibras cortantes da corda ao redor do pescoço lhe lembravam do medo humano primordial.

Havia sido educada nas tradições de sua mãe em segredo e no Deus cristão abertamente pela vila. Dentro de si, sempre houve lugar para ambos. Mas em seu momento final deveria escolher. Mesmo não tendo podido dar um enterro Navajo para ele, esperava que seu pequeno tivesse voltado para sua amada natureza. Nada de céu ou inferno para Tommy, apenas fim e equilíbrio.

“… a acusada foi encontrada executando um ritual para forças demoníacas segurando a vítima já sem vida. Em suas vestes, foi encontrado um frasco de arsênico, utilizado para envenenar o infante, fonte de sacrifício para a prática profana…”

O céu escureceu e soltou relâmpagos violentos em homenagem à filha, prestes a voltar ao pó. O som dos trovões se misturava ao ranger da roldana, a içar a forca, e a forte chuva abafou o clamor da multidão, a pedir pela vida de Sarah. Finalmente entendera: três suspeitos, uma herança, um vidro de arsênico, uma prole favorita, um casamento tardio.

Ela olhou para a pessoa responsável pela morte de seu menino. Em fim conseguiu encontrar-lhe o olhar e nele a confirmação: um pequeno sorriso escapava aos lábios, olhos relaxados por não precisar mais chorar. A condenada fez uma prece em silêncio, despediu-se da mãe em seu coração e agradeceu. A tempestade cessou, atendendo a decisão da filha.

“Sarah Brown, quais são as suas últimas palavras?”

Ela ainda olhava para aqueles olhos assassinos e relembrava os ensinamentos do Padre Irvin sobre pecados imperdoáveis quando respondeu:

“Vejo você no inferno”

E pulou do cadafalso.


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