Um a cada sete

Ele pegou o chapéu preto de veludo fino, que era o favorito dele, e colocou junto com o resto, na mala de viagem estampada com um Mickey gigante. Elisa não gostava muito dele, assim como não gostava da camisa branca bem cortada e da saia de linho que ele havia escolhido, mas ela nunca teve muito bom gosto. Havia dias em que se vestia como uma vadia genérica, outros como uma senhora com vinte gatos. O homem vasculhou as coisas de Elisa para ver se não estava esquecendo nada importante e encontrou um vape de tutti-frutti, escondido entre os absorventes. Ela adorava aquele negócio, aquela fumaça asquerosa para todo o lado. Agora ele entendia porque ela tinha começado a usar perfumes e pasta de dente de tutti-frutti, ponto para ela. Jogou o vape no lixo e fechou a mala tamanho 28 com dificuldade.

Desceu a mala com esforço pelos quatro lances de escada. Ele amava o Bom Fim, mas seus prédios antigos sem elevador o davam nos nervos. Parou para tomar um ar, estava uma noite fria com neblina baixa, um clássico de Porto Alegre e perfeito para seu objetivo.

Começou seu cortejo pelo estúdio de Yoga. Foi lá que ele observou Elisa pela primeira vez, os cabelos colados no pescoço por causa do suor, olhos negros sem confiança e passos rápidos. No caminho para casa, comprou um cachorro-quente, o que não ajudava com seus quilos a mais, algo que precisaria ser corrigido.

A próxima parada era a Lancheria do Parque, lugar do primeiro encontro e da primeira correção. Algumas pessoas o repreenderam com o olhar e ele aprendeu a não fazer mais aquilo em público.

Decidiu fazer uma parada rápida na Santo Antônio, a rua para a qual ela fugiu pela primeira vez. Ele se distraiu e ela conseguiu escapar pela janela, atravessou a Osvaldo e entrou na primeira rua que viu. Como era burra. Teria mais sorte se tivesse ficado na avenida. Não que ninguém tenha visto ela correndo gritando e ele a arrastando de volta para casa, apenas ninguém disposto a se meter em briga de marido e mulher. De qualquer forma, foi uma perseguição prazerosa.

Chegaram ao destino final, a Redenção. Mais especificamente um pedaço da praça em frente a janela do quarto dele, era o lugar perfeito. Começou a cavar.


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