Vinte de Novembro

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

Poema tirado de uma notícia de jornal, Manuel Bandeira

João Gostoso pôs-se a caminhar sem rumo certo após doze horas de trabalho. Os calos das mãos, não suportando mais o peso das sacolas e caixas, agora jaziam em carne viva. Ele tentou apoiar a bolsa de trabalho nas costas, mas elas também já não eram mais as mesmas, cheias de hérnias e lesões desconhecidas. Dando-se por vencido, João pegou sua carteira e abandonou o resto. A alta burguesia de Copacabana o olhou com reprovação, mas ele deu de ombros, havia ajudado a alimentar aquela gentinha durante 20 anos de trabalho na feira livre, podia se dar ao luxo de manchar o cenário antisséptico com uma bolsa do Saara.


Decidido seu destino, continuou em direção a Ipanema, rumo a um velho amigo. No caminho, avistou uma mulher dormindo na calçada com os seus filhos, tal qual um agouro. Ficou olhando por minutos a fio, até que teve a impressão de ver vermes comendo-lhes a carne. Estariam mesmo apenas dormindo? As pessoas que passavam não pareciam notar a família, estaria ele delirando ou é apenas o que o mundo se tornou? Decidiu não descobrir.


Finalmente chegou ao bar Vinte de Novembro, faz anos desde a última vez que esteve lá. Foi no Vinte que conheceu a esposa, ela dançava embalada pelos músicos locais e roubando suspiros de sambistas profissionais. João não sabia dançar, mas tentou mesmo assim, faria tudo para impressionar a moça de cachos escuros e ela achou graça dos seus passos desengonçados. Dois anos depois, no dia 20 de novembro, eles se casariam. Trinta anos depois, ele estava lá, vendo a banda substituída por um rádio barato e os dançarinos, por bêbados decadentes. Apenas o garçom continuava o mesmo, parado no tempo como uma espécie de entidade do local.


Gostoso pediu uma garrafa de cachaça, que o seu Paulo lhe deu em nome dos velhos tempos. João também perguntou se podia colocar Cartola no máximo, que seu Paulo acatou por pena. Então dançou, lembrando dos belos cachos de Catarina. Bebeu, tentando esquecer as mazelas da vida. Cantou, querendo deixar uma cicatriz no mundo.


Saiu do bar quando o sol nasceu, desejou uma vida longa ao Vinte e foi em direção à lagoa Rodrigo de Freitas. Chegando lá, saudou o crepúsculo, que tinha a cor dos olhos de sua preta, e pulou, pronto para virar estatística não dita.


Gostou do meu trabalho e quer apoiar? Envie o seu e-mail no form abaixo para seguir o Blog, acompanhe o meu conteúdo nas redes sociais e, se puder, compartilhe com os amigos. Obrigada e até semana que vem!



Leave a comment