
[Alerta de gatilho: Suicídio]
A dona da fruteira foi a primeira a notar o móvel na janela. Era uma cama comum, de madeira clara, lençóis escuros e travesseiros azuis. Estava lá, pendendo da janela como em uma mudança interrompida. A feirante tentava encontrar sentido naquela situação, mas logo os clientes começaram a chegar e seu foco passou a ser garantir o sustento da família.
Na medida que o sol ganhou espaço no horizonte e a cidade começou a pulsar. A maioria das pessoas passava sem sequer registrar a cama na janela, já outros, mais atentos, dedicaram alguns minutos a questionamentos banais:
“Como pode uma cama tão bonita estar na janela?”
“Parece estar presa com uma corda bem forte.”
“Tem certeza? Ela parece um pouco bamba.”
“Não tem perigo! Cama que ameaça não cai.”
Após meses de esquecimento, adolescentes começaram a tirar sarro da cama na janela, tocando ovos podres e pedras só para ver se ela cairia. A cama, em protesto, começou a fazer rangidos estranhos e constantes, chamando a atenção de todos que passavam por ali.
Algumas pessoas sugeriram cobrir a cama com um toldo para impedir novos ataques e mascarar as reclamações. O pastor da rua disse que poderia benzer a cama, garantindo sua salvação. Um homem, já sem paciência, sugeriu umas pancadas bem dadas para fortalecer. No fim, a cama como se soubesse ser um estorvo, parou de fazer barulho.
Setembro chegou e trouxe consigo uma súbita solidariedade. Pessoas aleatórias resolveram dar atenção à cama, chegando até a reforçar com tiras de metal a corda que a segurava. Outros paravam só para oferecer ajuda com o que fosse necessário, registrando o momento nas redes sociais e sumindo na multidão de almas preocupadas.
Em um dia comum de uma semana qualquer, a cama caiu. Espatifou-se em mil pedacinhos no canteiro de alguém. Em poucos instantes pessoas e mais pessoas lotaram a rua, lamentando e sentindo muito mais o impacto da queda do que a perda da cama. Elas conversavam entre si, cheias de opiniões e perguntas:
“Como isso pode acontecer? Nós cuidamos tão bem dessa cama.”
“Foi completamente do nada, ela estava muito bem”
“O que a falta de Deus não faz, onde esse mundo vai parar?”
“A cama de uma conhecida minha também caiu de uma hora para a outra”
A única que nada podia dizer era a cama, estraçalhada muito antes de tocar o chão.
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