Por Theodora Xavier • aprox. 8 min de leitura
Ser uma criança nos anos 90 podia ser bem assustador. O Fantástico passava histórias de fantasma e autópsias de alienígenas sem pudor algum, o Gugu exibia um quadro de lendas urbanas que apavorava tanto pela atuação de qualidade duvidosa, quanto pela possibilidade de ser realmente baseada em fatos reais e por último, mas não menos importante, a maioria dos brinquedos infantis provavelmente estavam possuídos por um ou mais demônios.
Estudar em um colégio religioso também era um agravante: sempre tinha a má influência da semana, era só as coitadas das crianças se divertirem com alguma coisa que pronto, era obra do Satanás. Lembro que quando eu estava no jardim da infância houve um grande terrorismo em relação aos Teletubbies, que com aquele design bizarro, chuvisco na barriga e o Po sendo uma gay fabulosa, eram um prato cheio para os crentes que olhavam torto até para as fofoletes. Eu com os meus sete anos amando Xuxa, assistindo Teletubbies todos os dias e sem previsão de fazer primeira comunhão, estava praticamente nos braços do capeta.
Dado esse contexto de horror extremo, vocês podem imaginar a preocupação da pequena Theodora ao chegar no colégio com sua lancheira do perna longa e se deparar com a última do recreio: A boneca da Emília, aquela do sítio do pica-pau amarelo, aparentemente andava pela casa durante a noite roubando comida e eventualmente matando crianças desavisadas. Eu, uma criança com uma maturidade que só filhas de mães narcisistas têm, garanti de me certificar que era a boneca da Emília da Estrela versão pequena antes de entrar em pânico. Infelizmente, não só era a boneca da estrela, como eu tinha ela e recentemente havia rasgado seu bracinho sem querer. Resumindo, eu estaria encontrando o mochila de criança muito antes do programado.
Cheguei em casa tão perturbada que os xingamentos usuais da minha mãe por eu existir nem foram registrados na caixinha do trauma, afinal, eu tinha problemas maiores. Entrando no meu quarto, lá estava a dita cuja em cima do guarda-roupa, me olhando com aquele biquinho de boneca fofo e pronto para enganar crianças desavisadas. Para piorar, ela tinha o terreno mais alto, se eu quisesse tirá-la de lá, teria que escalar o guarda-roupa, coisa que eu não podia fazer com a minha mãe por perto. Não tinha jeito, teria que esperar anoitecer.
Durante a noite, logo após minha mãe apagar a luz e fechar a porta, meu instinto de sobrevivência falou mais alto do que o meu cagaço: Eu precisava dar um fim na boneca antes que ela desse um fim em mim. Peguei a lanterna que eu escondia embaixo da cama e acendi para ganhar um tempo enquanto eu bolava um plano. Pensei em colocar ela no lixo, mas era uma longa caminhada até a área de serviço durante a noite e eu seria morta pelos espíritos da escuridão antes de conseguir me livra dela e se por acaso eu sobrevivesse, pela manhã quem ia me matar seria minha mãe por jogar uma boneca fora, isso se a bandida não resolvesse sair do lixo, aproveitar que já estava na cozinha, pegar uma faca e me matar ainda mais fácil!
Naquela época eu ainda tinha bastante vontade de viver, então comecei a pensar em alternativas, mas nenhuma ideia parecia executável. Cheguei a pensar em tacar fogo na boneca, mas como também envolvia uma jornada para a cozinha, desisti. De repente tive uma iluminação: já sabia o que fazer. Munida de toda coragem que havia dentro de mim e repetindo para mim mesma “O que Buffy faria?”, eu levantei fiz minha escalada com todo o cuidado para não acordar o outro ser que potencialmente poderia me matar, peguei a Emília e olhando nos fundos dos olhos dela, a joguei no fundo do guarda roupa, fechando as portas e colocando um lápis entre os puxadores para dificultar uma possível fuga. Estava acabado. Eu havia vencido a Emília assassina e poderia viver feliz para sempre… ou pelo menos até descobrirem algo estranho com a boneca da Eliana.
Acordei no outro dia uma sobrevivente. O lápis continuava cumprindo sua missão e eu poderia ir para o colégio em paz e vitoriosa. Cheguei na minha sala contando a minha vitória e minhas amigas ficaram impressionadas com a minha coragem. Me senti a Buffy de bonecas assassinas, uma heroína que volta da batalha mesmo contra todas as probabilidades após enfrentar seu pior inimigo. Contei a todos (com uma acurácia questionável) a maneira sagaz e definitiva que usei para me livrar de uma boneca perigosa.
Voltei para casa após um longo dia de bravatas e histórias de heroísmo, largando minha mochila na sala em ato de ousadia e indo para meu quarto aproveitar o super Nintendo que havia pegado emprestado com meu primo. Foi nesse momento que meu coração gelou: A boneca da Emília estava sentada na minha cama, me olhando com um sorrisinho de escárnio estampado no rosto. Toda a coragem da noite anterior se esvaiu em uma crise de choro, permitindo apenas que eu saísse correndo em direção ao telefone para ligar para um adulto responsável. A coisa havia escalado muito, era hora de chamar as autoridades.
Meu pai chegou do trabalho assustado, perguntando o que havia acontecido, enquanto minha mãe fazia questão de lembrar que não era dia de visita. Após vários copos de água com açúcar, eu relatei minhas aventuras noturnas e como eu não passaria dessa noite. Já estava fazendo um testamento deixando todas as minhas coisas para a minha melhor amiga quando meu pai concordou em dar fim na boneca, não sem antes me dar um sermão por ficar vendo filmes de terror demais e acreditar em tudo o que falavam. Com medo da Emília tentar matar meu pai pensei em sugerir que minha mãe desse um fim nela mas lembrei que adultos a princípio não faziam parte do modus operandi dela.
Meu pai ficou comigo até eu dormir e depois foi embora, levando a cria do capeta consigo. Eu estava salva. Mais sorte do que juízo.
Anos depois, em meio a uma discussão e outra, minha mãe achou de bom tom me contar que havia sido ela quem havia resgatado a Emília de sua prisão enquanto arrumava o meu guarda roupa e colocado ela na minha cama. Quando questionada porque demônios ela não falou nada para a pequena Theodora em prantos na frente dela, ela respondeu que achou que serviria de lição. Rimos muito e eu encaminhei para ela o boleto da terapia.
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